Não gosto tanto dos abraços de lado, disfarçados, mais para tapinhas nas costas que abraços.
Gosto de abraços inteiros, coração com coração, desejo de felicidade circulando direto entre duas pessoas.
Mas, também aceito os abraços de lado. O que fazer se, em alguns casos, o abraço inteiro não é possível?
Minha felicidade é diretamente proporcional à quantidade e qualidade dos abraços recebidos.
Se passo algum tempo com poucos ou nenhum abraço vou murchando, murchando como se a bateria fosse se descarregando.
Quando viajo e me encontro com culturas diferentes onde o abraço não é tão praticado, respeito as pessoas no momento do encontro cumprimentando-as com um aperto de mão.
Mas, se na despedida eu tiver simpatizado com elas e elas comigo, roubo-lhes logo um abraço e juro que nunca fui rejeitada ou perdi um contato, uma amizade ou um negócio por causa de abraços.
Pelo contrário, ganhei muitos amigos, criei, ampliei e depois preservei meus laços com o mundo através dos abraços.
Estava numa fila para ter um livro autografado quando notei que o autor estrangeiro, um conhecido mestre da auto-cura, estava murchando de tanta gente lhe contando seus problemas de saúde e lhe pedindo ajuda.
Cortei a fila, esperei uma brechinha e lhe disse:
- Acho que você precisa de um abraço, quer?
Ele aceitou de bom grado, eu voltei para o fim da fila e na minha vez trocamos outro abraço.
Aprendi a abraçar com meus pais, uns “abraçadores” de primeira.
Há alguns anos, depois de passar por uma crise em seu casamento, meu pai me contou um segredo que eu compartilho aqui:
- Descobri a fórmula para ser feliz com sua mãe. Troco um abraço forte com ela todas as vezes em que eu chego ou saio de casa. Neste abraço limpamos todas as mágoas, apagamos quaisquer palavras duras que tivermos trocado, reafirmamos nosso amor, refazemos nossa promessa de vida em comum.
Não é um mestre?
Não gosto de situações onde existam tantas pessoas que eu não posso abraçar a todas: festas muito grandes, cidades ou empresas impessoais. Não falo do abraço gratuito, gesto formal substituindo o aperto de mãos não. Falo de relações que me inspirem a abraçar, falo de comunidades que existem dentro de famílias, festas, cidades e empresas.
É isso! “Comunidade é um grupo de pessoas que trocam abraços sinceros”.
Não se trata de abraçar o mundo, mas se suas relações de afeto forem se ampliando, você em breve estará abraçando todo o seu mundo, todas as pessoas das comunidades das quais faça parte.
Meus abraços prediletos são os do reencontro.
É tão bom quando a gente revê uma pessoa querida e na surpresa do reencontro troca aquele abraço comemorativo como se o corpo inteiro estivesse suspirando de alegria!
Quantas vezes eu já não troquei abraços múltiplos porque a alegria era tamanha que um abraço só não a comportava!
Humm...
De abraços de despedida não sei se gosto.
Eles são inevitáveis. Ante a perspectiva da separação a gente tenta deixar com o outro um pouquinho de si e tenta levar um pouco do outro dentro do nosso coração.
Aí, as vezes dói, mas o importante nessas horas é manter a essência do abraço: deixar com o outro só o desejo de felicidade e levar consigo apenas o mesmo desejo. Só isso, nada mais, nem nada menos porque, afinal, não é essa a essência do amor?
sábado, 25 de julho de 2009
sábado, 27 de junho de 2009
Dicas de uma caipira para se viver bem em São Paulo

São Paulo não foi minha primeira experiência de grande metrópole. Na verdade, o choque foi ainda maior quando saí do Vale do Paraíba para a Califórnia.
Imaginem de Taubaté para São Francisco sem tempo para amarrar o queixo para ele não cair! Minha adaptação foi muito boa: aprendi a não me chocar o tempo todo.
Tão boa que, já no Brasil, fui capaz de disfarçar meu espanto quando entendi que o primo de uma colega de trabalho havia lhe trazido ópio da Itália. Perguntei com o ar mais cosmopolita que eu pude encontrar:
- Ah, é? Ópio? E que tal? Você já experimentou? O que sentiu?
- Opium, Katia, Ives Saint Laurent, o perfume!
Depois disto, virar paulistana quando me mudei para São Paulo, foi bico.
E quase morro de tanta paulistanidade!
Stress, medo de assaltos, solidão, cansaço permanente, eu havia adotado o “quando em Roma, faça como os romanos”.
Bobagem! Quem foi que disse que São Paulo foi sempre assim?
Já ouvi muitos paulistanos ressentidos se queixarem por tanta gente ter “invadido” sua cidade e a transformado nesta metrópole assustadora.
Deve ter sido por causa de gente como eu que de forma caipira (no sentido pejorativo) resolveu deixar de lado seu modo de ser e virar cosmopolita.
Pois, nos últimos anos reassumi meu modo de ser caipira e nunca vivi tão bem.
Esta é apenas uma cidadezinha que se expandiu geograficamente, gente!
As pessoas que vivem aqui são gente como aquelas que habitam o interior, o Nordeste, as Minas Gerais, etc. São Paulo está cheia de caipiras, nascidos aqui ou não.
Só que elas receberam algumas lições que as impedem de viver em São Paulo.
Pois é, a a maioria delas mora em São Paulo, mas não vive de verdade aqui.
Então, estas são algumas constatações caipiras de quem aprendeu a gostar de viver em São Paulo (à sua maneira).
Algumas dicas podem parecer óbvias, mas se são tão óbvias assim, por que você ainda não as está praticando, uai?
Fale sempre com estranhos
Não tenha medo: fale com estranhos na fila do banco, no metrô, no supermercado, na academia. As pessoas estranham um pouco, a princípio, e algumas vão mesmo olhá-lo de cara feia. Não desanime, continue. Conversar amplia seus horizontes, faz passar o tempo mais depressa e pode ser muito divertido.
Por que imaginar que o estranho vai explorá-lo, aborrecê-lo, ou mesmo assassiná-lo?
Ele pode ser um grande amigo que você, por enquanto, desconhece.
Se você praticar bem a arte de puxar papo, ela vai ajudá-lo em outros momentos muito interessantes.
Minhas amigas caipiras não têm a menor dificuldade de estabelecer contatos e fazer amigos (e namorados). Elas não se queixam de solidão. Interessada ou desinteressadamente, elas simplesmente puxam papo.
Eu mesma já vivi romances maravilhosos que começaram a partir da conversa com um desconhecido. Se eu fosse esperar que amigos e parentes me apresentassem pessoas, teria perdido uma parte muito interessante da minha vida.
Se o outro for paulistano e você estiver interessada (agora é só para as mulheres), considere que, mesmo sendo homem, ele não tem o hábito de falar com estranhos.
Você tem que dar a ele esta oportunidade. No supermercado coloque distraidamente suas compras no carrinho dele, no trânsito pare para examinar um pneu supostamente furado, no trabalho, ah, no trabalho invente você mesma uma desculpa, pôxa! Jogue fora o medo e assuma a imaginação e a inteligência que você possui para não parecer “atirada” (isto faz parte das minhas lições de caipira) e dar a ele a magnífica oportunidade de falar com você.
Era um fim de tarde chuvoso quando eu vi um rapaz saindo do metrô e caminhando rápido pela Pamplona. Eu lhe ofereci (desinteressadamente, desta vez) carona no meu guarda-chuva. Descobrimos que éramos vizinhos e ele me convidou para tomar um café que eu não pude aceitar por estar com pressa.
Mas, quando não houver nenhum estranho ou amigo à vista e a solidão estiver muito difícil de agüentar, ligue para o CVV - Centro de Valorização da Vida. Eles são um bando de caipiras paulistanos com uma disposição imensa para nos ajudar a viver.
Incomodados, não se mudem: mudem o mundo
Eu ficava incomodada com a falta generalizada de educação. Minha irritação era constante com os motoristas mal educados, as pessoas que jogam papel na rua, as que furam fila e as que deixam senhoras em pé no ônibus ou no metrô.
Com o tempo, à medida em que eu fui aprendendo a amar as pessoas, este amor passou a englobar também as pessoas mal educadas.
Por que as pessoas são recriminadas na Suíça por jogar papel no chão? Porque se acredita que elas possam mudar!
Não, não comecei a recriminar ninguém.
Passei a contar para as pessoas o que elas haviam feito. Sem julgamento, sem recriminações.
Abria a janela do carro e dizia:
- Moço, o senhor deixou caiu um papel. Acho que é seu.
Milagre! As pessoas ficavam tão envergonhadas que abriam a porta e recolhiam o lixo!!!
Na rua faço a mesma coisa e tive apenas uma experiência de desagrado, apenas uma garota deu de ombros e me olhou com ar enfezado.
Agora, no metrô, se vejo uma senhora em pé (o que devo dizer que está ficando cada vez mais raro), chego para um rapaz e lhe conto:
- Viu aquela senhora? Ela parece tão cansada!
Nem preciso sugerir que ele se levante. O efeito é imediato.
Para isto, é claro, tem que haver carinho na voz, é necessário acreditar que estas pessoas saibam o que é certo, só estão precisando ser relembradas das lições que, com sorte, elas tiveram um dia.
Desista do carro
Em Taubaté (ao menos no meu tempo) não havia muitas linhas de ônibus e as pessoas se perguntavam: “Prá que? É tão pertinho. Daqui ali é um tirinho de espingarda”
Acostumei-me a atravessar a cidade a pé e fui magérrima a adolescência e juventude inteiras.
A não ser que você goste muito de dirigir e não se incomode com o trânsito, sugiro que você faça do seu bairro a sua cidade (médicos, escolas, comércio) e que só atravesse as fronteiras de metrô ou de ônibus. Para isto, é claro que você tem que aprender a andar a pé.
É, isto mesmo, a pé, sem medo de assaltos, fazendo um bom trabalho cardiovascular e exercitando a arte de observar o caminho.
Eu já fui assaltada três vezes dentro de um carro e nenhuma enquanto andava pelo centro da cidade, pela 25 de março ou pela Paulista.
Seja radical, opte por médicos, escolas, cinemas e lojas que lhe permitam dispensar o carro. Se você gostar do agito, das filas para estacionar no shopping center, da paquera motorizada dos Jardins no final de semana, tudo bem. Mas, se você, como eu, já passou dos 30, experimente radicalizar. Quanto tempo de vida eu tenho para desperdiçar?
Quando eu caminho livre para casa no final do dia, vejo os carros parados na Pamplona e o ar de aborrecimento impresso nos rostos cansados dos motoristas e agradeço aos Céus pela benção de poder trabalhar sem carro.
Quatro anos gastando no trânsito 3 horas por dia foram suficientes para me fazer radical. Foi só fazer as contas: eu gastava dois dias de trabalho por semana no trânsito! É melhor ganhar menos e viver mais. Ou estudar em casa sozinha durante este tempo para me tornar uma profissional melhor.
Hoje faço pelo menos 1,5 h de exercícios por dia e a troca foi muito, muito vantajosa.
É claro que freqüento uma academia no meu bairro. Antes eu chegava estressada em casa depois de fazer ginástica num lugar maravilhoso mas que me exigia 1 hora de trânsito para alcançá-lo.
Ao caminhar, esteja atento ao caminho. Você faz isto quando viaja, por que não incorporar esta atitude para o dia-a-dia? Ah, já sei, porque sua cabeça está concentrada no seu ponto de partida ou no seu ponto de chegada.
Dedique-se ao prazer de caminhar, de olhar ao redor, de observar os rostos das pessoas, de, de vez em quando, entrar em lojinhas que pareçam interessantes, de entrar numa exposição que algum banco esteja promovendo, de fazer tudo aquilo que você não faria se estivesse de carro porque seria impossível estacionar.
Ah, e quando for a um parque, por favor, não vá caminhar pelas alamedas principais durante o tempo recomendado pelo cardiologista. Se você quiser fazer da caminhada um remédio, tudo bem, mas não se furte ao prazer de caminhar sem pressa depois. Não deixe de olhar para a copa das árvores, aproveite para respirar, sinta o cheiro de terra molhada. Embrenhe-se pelas trilhas menos usadas, passe a mão no tronco das árvores e embriague-se da Natureza tão rara nesta grande cidade.
Resgate suas práticas religiosas
Não sei o que você fazia antes de vir para São Paulo, mas é aqui que você vai precisar mais daquelas práticas que lhe dão a dimensão da sua vida dentro de uma vida maior.
Não considero religiosas apenas as orações ou meditações. Tirar o sapato e sentar-se embaixo de um eucalipto no parque Ibirapuera é puro êxtase para mim.
Assistir a um concerto (baratíssimo) no Teatro Municipal, também.
Eu fui a única aluna reprovada num curso de dança de salão, em compensação, danço maravilhosamente bem sozinha (principalmente se ninguém estiver olhando). Os movimentos são precisos, graciosos, seguem a música harmoniosamente? Sei lá! Ponho minha alma para fora quando danço “Adios, nonino” do Piazolla ou as músicas do Vangelis e me encho de alegria com as músicas do Gilberto Gil. Descobri, recentemente, que um tipo de meditação é feito através da dança. Pois é isto que faço enquanto danço sozinha, eu medito, eu me coloco em contato comigo mesma e com o Universo.
Dá prá viver sem este equilíbrio?
Aprecie seus vizinhos
Com a família e os amigos mais chegados morando em outro bairro ou em outra cidade (o que dá na mesma em termos de tempo no trânsito), tome consciência de que seus vizinhos são preciosos.
O respeito à privacidade e à individualidade em São Paulo são coisas que eu considero maravilhosas e um dos motivos por optar por morar aqui.
Mas, as pessoas exageram! Por medo do abuso, daquele vizinho chato que não sai da nossa casa, da vizinha fofoqueira que vai controlar nossas vidas, abolimos todo o contato com os vizinhos, principalmente se morarmos em prédios.
Olha, ninguém mais tem tempo para “não sair da sua casa” ou fofocar. Sossegue, relaxe, você não está sendo julgado. Tem muita gente boa pertinho de você.
Ao invés da falta total de contato, por que não aprender a fixar e a obedecer limites?
Um abraço carinhoso, uma xícara de chá e um ouvido amigo podem fazer toda a diferença naqueles dias em que a vida parece não ter significado.
E eu não estou me referindo apenas a quem recebe o abraço, a xícara de chá e o ouvido. Oferecê-los talvez dê, ainda mais, todo significado à vida.
São Paulo, 19 de abril de 1997
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Patagônia 2
Depois de fazer trilhas em montanhas, praticar rafting em um rio que corta os centenários bosques andinos patagônigos, saltar sobre pedras para nadar nos lagos, cavalgar pelas estepes com uma égua que quase me mata de tanto correr, e fazer tiroleza em 9 plataformas fixadas em pinheiros a 20 m de altura no alto do Cerro Lopez, estava me sentindo uma indômita aventureira quando voltei para o Brasil.
Mal sabia que a volta para o trabalho seria repleta de emoções. No segundo dia, minutos antes da abertura de um evento no escritório, com o lobby lotado de clientes, parceiros, imprensa e funcionários da própria empresa, eu escorreguei. Voei da escada mergulhando de cara no piso com o corpo sobre o meu pulso direito retorcido. Tive direito até a ir de ambulância para o hospital. Quando fechei os olhos pensaram que eu havia desmaiado, mas era puro constrangimento mesmo.
Conclusão: felizmente apenas uma fratura no rádio da qual estou me recuperando. Conto as aventuras para os amigos que vierem me visitar.
Digitar apenas com a mão esquerda cansa MUITO!
Mal sabia que a volta para o trabalho seria repleta de emoções. No segundo dia, minutos antes da abertura de um evento no escritório, com o lobby lotado de clientes, parceiros, imprensa e funcionários da própria empresa, eu escorreguei. Voei da escada mergulhando de cara no piso com o corpo sobre o meu pulso direito retorcido. Tive direito até a ir de ambulância para o hospital. Quando fechei os olhos pensaram que eu havia desmaiado, mas era puro constrangimento mesmo.
Conclusão: felizmente apenas uma fratura no rádio da qual estou me recuperando. Conto as aventuras para os amigos que vierem me visitar.
Digitar apenas com a mão esquerda cansa MUITO!
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Patagônia 1
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Quando eu disse a todos que iria para Bariloche em janeiro, a primeira pergunta que ouvi foi: vai esquiar? Ainda tem neve?
E a primeira pergunta que eu ouvia dos argentinos por aqui era: você já veio no inverno?
Eles têm até mesmo um nome para Bariloche no inverno: Brasiloche.
Escrevo no meu último dia de férias aqui para dizer que esses quinze dias em contato direto com a natureza da Patagônia no verão e sem neve foram os mais restauradores de minha vida.
Está certo que tenho uma almofada elétrica nas costas que doem muito por conta de uma aventura que descreverei mais tarde, mas a alma e o resto do corpo estão maravilhados.
Bariloche fica na Patagônia, uma imensa região do sul da Argentina que vai até a Terra do Fogo. Patagônia me remetia aos pingüins (sem trema, ai, não dá, coitadinhos) até 93 quando eu dei aulas numa obra da CPBO em Pichu Picu Leufu, mas isso é outra história. Custei para descobrir que Bariloche fica na Patagônia. Santa ignorância, Batman!
Comecei a planejar esta viagem com minha irmã que vive na Argentina e com meu cunhado desde o final de novembro.
Escolhemos uma cabaña pela internet que nos parecia (e é) linda e a alugamos: http://www.vientosdesur.com.ar/
No caminho para uma montanha, ela oferece uma linda visão de Bariloche e do lago Nahuel Huapi.
Este lago tem 529 km2 de tamanho. Se eu ouvi bem o que disse um dos guias, para vocês terem uma idéia de quão grandioso e majestoso ele é, cabem 3 Buenos Aires dentro dele!
Há dois tipos de lagos na região: alguns nascem dos glaciares que com o degelo derretem montanha abaixo e outros têm sua origem em nascentes.
Vocês bem podem imaginar a temperatura da água, mas sua cor e transparência é algo indescritível e se deve ao fato de que o fundo é feito de rochas, pedrinhas; é uma região muito rochosa.
Essa água é usada na região e abastece os rios que seguem na direção das cidades que também se servem dela, inclusive para energia elétrica.
Por isso desde o final do século XIX foi criado o Parque Nacional de Nahuel Huapi que é onde Bariloche se localiza.
Antes da chegada dos espanhóis, este pedaço da Patagônia foi habitado por diferentes tribos índígenas, mas a que deixou mais forte presença foram os índios Mapuche, que atravessaram os Andes em busca de refúgio da perseguição dos espanhóis. No Museu da Patagônia vi as bolas e os boleadores que eles já usavam para caçar e lutar naquela época. Esse uso, não sei se só deles, mas de outros indígenas, se reflete (ou refletia) nos pampas brasileiros, entre os gaúchos.
Bom, enfim, cheguei no domingo à noite há quinze dias em vôo direto da TAM (4 horas de viagem só!) e fui recebida por Debinha, Daniel e Daniela (irmã, cunhado e sobrinha). Eles haviam feito o longo caminho desde Buenos Aires em dois dias, repousado um pouco e era quase uma hora da manhã quando me pegaram no aeroporto.
O carinho deles foi parte essencial do restauro, são pessoas muito especiais e amorosas como sabem todos os que os conhecem.
Exploramos juntos a região.
Primeiro a cabana: dois andares, acesso wireless à internet, calefação perfeita, dois quartos, uma sala/cozinha com amplas janelas de vidro com a vista que já mencionei, dois banheiros e um dono que administra tudo com cuidado e dedicação, um engenheiro casado com uma psicóloga que adora conversar sobre os mais variados temas.
O pequeno guia que encontramos em nossa cabana era completo: indicação de como funcionava tudo, do alarme ao telefone, restaurantes, serviços de delivery, passeios mais comuns, telefones de táxis, enfim, uma obra de engenharia realmente.
Na manhã seguinte, e em boa parte das manhãs, acordei cedo, subi para a sala, abri as janelas e meditei, orei, contemplei. Usando as 106 contas do japamala agradeci à Vida por cada uma das bênçãos que ela me proporcionou e muitas vezes tive que dar duas voltas porque só de familiares, amigos e amigas, já tenho uma volta completa.
O objetivo espiritual desta viagem foi se revelando aos poucos.
Fui me reconectando com o planeta Terra que falou comigo em diversas ocasiões:
Quando entrei nas águas do lago Nahuel Huapi, elas me falaram da diminuição dramática das neves a cada ano.
Quando caminhei sozinha no bosque andino, senti as árvores centenárias me transmitindo sua força.
Quando dois cavalos se aproximaram de mim na fazenda, nossa conversa silenciosa pelo olhar era de uma doçura que me fez esquecer a dor nas costas pelos exageros da cavalgada.
As montanhas com sua imponência magestosa me relembraram há quão pouco tempo a espécie humana surgiu, que somos fruto e não donos do planeta e nossa responsabilidade para com as demais espécies nesse momento tão decisivo.
Bem, quando os demais se levantavam, tomávamos café e saíamos para nossas explorações.
No primeiro dia fizemos o circuito pequeno, que, teoricamente, deveria durar meio-dia, mas que nos tomou o dia inteiro porque TUDO era imperdível.
A cabana era bem próxima do centro que se espalha por 4 ou 5 ruas a partir do lago.
Bordeando o Nahuel Huapi, seguimos nos maravilhando com a vista do lago e das montanhas, passando por lindas praias de pedras ou areia bem grossa quase pedrinhas e rochas ladeadas por pinheiros.
Subimos de teleférico o primeiro cerro (montanha) e ali foi possível avistar em 360º. toda a extensão dessa composição magnífica feita de montanhas muito altas, lagos, bosques de pinheiros, ilhas e coroada por um céu azul praticamente sem nuvens.
Fotos, fotos, fotos, Daniel e eu ficamos loucos com nossas câmeras.
Daniela esperava algo mais radical na subida do teleférico (muito devagar, disse ela) e na descida descemos Débora e eu cantarolando trechos da Noviça Rebelde (riam o quanto quiserem, mas foi o que fizemos, aliás, fiz tudo o que quis na viagem mais livre de minha vida).
Mais à frente seguimos e passamos pelo hotel Llao Llao (jau, jau como dizem os argentinos). Este hotel, feito nas primeiras décadas do século passado, tem a localização mais privilegiada que se pode imaginar. Está dentro de um parque, cercado por campos de golf, bosques e lagos.
De lá fomos por um caminho por dentre os bosques e ao passarmos por uma placa “Lago Escondido”, não resistimos e saltamos para conhecê-lo
Depois de um quilômetro por entre cedros e uma grande variedade de pinheiros, chegamos ao lago. Pequeno, cercado de verde, plácido e recolhido como pudorosa dama me fez pensar o que nos fez sair do carro, andar um quilômetro por algo que desconhecíamos e talvez esteja aí uma lição para nós, mulheres, o poder do mistério e das dificuldades a serem vencidas para se conquistar algo.
Voltamos contentes, e retomamos a estrada, mas qual não foi nossa surpresa quando alguns metros à frente outra placa dizia: Lago Escondido – acesso a 50 metros.
Rimos muito.
A fome já apertava a esta hora (mais de 4 da tarde) e vocês sabem os efeitos da fome sobre o meu humor. Paramos na Bahia Lopez, uma pequena praia ao lado de preciosa montanha, mas o restaurante estava fechado.
Seguimos até a Colônia Suíça que hoje é um centro de artesanato com algumas construções históricas (escola e igreja foi o que vimos).
Almoçamos uma truta deliciosa e voltamos à estrada principal.
Numa curva avistamos algumas pessoas paradas no acostamento tomando mate em círculo.
Nos perguntamos quem seriam os loucos a parar para tomar mate na estrada.
Bem, loucos estávamos nós.
Era o ponto panorâmico, tão indescritivelmente lindo que vou deixar para quando vocês vierem aqui ou virem as fotos.
Não digo nada, me recuso a fazê-lo.
Passamos novamente perto da Bahia Lopes e avistamos uma prainha com um canal que une o Lago Nahuel Huapi ao Lago Moreno.
Descemos e foi ali nosso primeiro encontro com as gélidas águas que atravessamos com coragem e impulsionados pelo sol que se fazia forte ainda às 6 da tarde.
Tomamos sol, conversamos, Daniela e eu nos aventuramos do outro lado por uma linda trilha e tiramos, para variar, muitas fotos.
Ir à praia fechou com chave de ouro nosso primeiro dia.
E a primeira pergunta que eu ouvia dos argentinos por aqui era: você já veio no inverno?
Eles têm até mesmo um nome para Bariloche no inverno: Brasiloche.
Escrevo no meu último dia de férias aqui para dizer que esses quinze dias em contato direto com a natureza da Patagônia no verão e sem neve foram os mais restauradores de minha vida.
Está certo que tenho uma almofada elétrica nas costas que doem muito por conta de uma aventura que descreverei mais tarde, mas a alma e o resto do corpo estão maravilhados.
Bariloche fica na Patagônia, uma imensa região do sul da Argentina que vai até a Terra do Fogo. Patagônia me remetia aos pingüins (sem trema, ai, não dá, coitadinhos) até 93 quando eu dei aulas numa obra da CPBO em Pichu Picu Leufu, mas isso é outra história. Custei para descobrir que Bariloche fica na Patagônia. Santa ignorância, Batman!
Comecei a planejar esta viagem com minha irmã que vive na Argentina e com meu cunhado desde o final de novembro.
Escolhemos uma cabaña pela internet que nos parecia (e é) linda e a alugamos: http://www.vientosdesur.com.ar/
No caminho para uma montanha, ela oferece uma linda visão de Bariloche e do lago Nahuel Huapi.
Este lago tem 529 km2 de tamanho. Se eu ouvi bem o que disse um dos guias, para vocês terem uma idéia de quão grandioso e majestoso ele é, cabem 3 Buenos Aires dentro dele!
Há dois tipos de lagos na região: alguns nascem dos glaciares que com o degelo derretem montanha abaixo e outros têm sua origem em nascentes.
Vocês bem podem imaginar a temperatura da água, mas sua cor e transparência é algo indescritível e se deve ao fato de que o fundo é feito de rochas, pedrinhas; é uma região muito rochosa.
Essa água é usada na região e abastece os rios que seguem na direção das cidades que também se servem dela, inclusive para energia elétrica.
Por isso desde o final do século XIX foi criado o Parque Nacional de Nahuel Huapi que é onde Bariloche se localiza.
Antes da chegada dos espanhóis, este pedaço da Patagônia foi habitado por diferentes tribos índígenas, mas a que deixou mais forte presença foram os índios Mapuche, que atravessaram os Andes em busca de refúgio da perseguição dos espanhóis. No Museu da Patagônia vi as bolas e os boleadores que eles já usavam para caçar e lutar naquela época. Esse uso, não sei se só deles, mas de outros indígenas, se reflete (ou refletia) nos pampas brasileiros, entre os gaúchos.
Bom, enfim, cheguei no domingo à noite há quinze dias em vôo direto da TAM (4 horas de viagem só!) e fui recebida por Debinha, Daniel e Daniela (irmã, cunhado e sobrinha). Eles haviam feito o longo caminho desde Buenos Aires em dois dias, repousado um pouco e era quase uma hora da manhã quando me pegaram no aeroporto.
O carinho deles foi parte essencial do restauro, são pessoas muito especiais e amorosas como sabem todos os que os conhecem.
Exploramos juntos a região.
Primeiro a cabana: dois andares, acesso wireless à internet, calefação perfeita, dois quartos, uma sala/cozinha com amplas janelas de vidro com a vista que já mencionei, dois banheiros e um dono que administra tudo com cuidado e dedicação, um engenheiro casado com uma psicóloga que adora conversar sobre os mais variados temas.
O pequeno guia que encontramos em nossa cabana era completo: indicação de como funcionava tudo, do alarme ao telefone, restaurantes, serviços de delivery, passeios mais comuns, telefones de táxis, enfim, uma obra de engenharia realmente.
Na manhã seguinte, e em boa parte das manhãs, acordei cedo, subi para a sala, abri as janelas e meditei, orei, contemplei. Usando as 106 contas do japamala agradeci à Vida por cada uma das bênçãos que ela me proporcionou e muitas vezes tive que dar duas voltas porque só de familiares, amigos e amigas, já tenho uma volta completa.
O objetivo espiritual desta viagem foi se revelando aos poucos.
Fui me reconectando com o planeta Terra que falou comigo em diversas ocasiões:
Quando entrei nas águas do lago Nahuel Huapi, elas me falaram da diminuição dramática das neves a cada ano.
Quando caminhei sozinha no bosque andino, senti as árvores centenárias me transmitindo sua força.
Quando dois cavalos se aproximaram de mim na fazenda, nossa conversa silenciosa pelo olhar era de uma doçura que me fez esquecer a dor nas costas pelos exageros da cavalgada.
As montanhas com sua imponência magestosa me relembraram há quão pouco tempo a espécie humana surgiu, que somos fruto e não donos do planeta e nossa responsabilidade para com as demais espécies nesse momento tão decisivo.
Bem, quando os demais se levantavam, tomávamos café e saíamos para nossas explorações.
No primeiro dia fizemos o circuito pequeno, que, teoricamente, deveria durar meio-dia, mas que nos tomou o dia inteiro porque TUDO era imperdível.
A cabana era bem próxima do centro que se espalha por 4 ou 5 ruas a partir do lago.
Bordeando o Nahuel Huapi, seguimos nos maravilhando com a vista do lago e das montanhas, passando por lindas praias de pedras ou areia bem grossa quase pedrinhas e rochas ladeadas por pinheiros.
Subimos de teleférico o primeiro cerro (montanha) e ali foi possível avistar em 360º. toda a extensão dessa composição magnífica feita de montanhas muito altas, lagos, bosques de pinheiros, ilhas e coroada por um céu azul praticamente sem nuvens.
Fotos, fotos, fotos, Daniel e eu ficamos loucos com nossas câmeras.
Daniela esperava algo mais radical na subida do teleférico (muito devagar, disse ela) e na descida descemos Débora e eu cantarolando trechos da Noviça Rebelde (riam o quanto quiserem, mas foi o que fizemos, aliás, fiz tudo o que quis na viagem mais livre de minha vida).
Mais à frente seguimos e passamos pelo hotel Llao Llao (jau, jau como dizem os argentinos). Este hotel, feito nas primeiras décadas do século passado, tem a localização mais privilegiada que se pode imaginar. Está dentro de um parque, cercado por campos de golf, bosques e lagos.
De lá fomos por um caminho por dentre os bosques e ao passarmos por uma placa “Lago Escondido”, não resistimos e saltamos para conhecê-lo
Depois de um quilômetro por entre cedros e uma grande variedade de pinheiros, chegamos ao lago. Pequeno, cercado de verde, plácido e recolhido como pudorosa dama me fez pensar o que nos fez sair do carro, andar um quilômetro por algo que desconhecíamos e talvez esteja aí uma lição para nós, mulheres, o poder do mistério e das dificuldades a serem vencidas para se conquistar algo.
Voltamos contentes, e retomamos a estrada, mas qual não foi nossa surpresa quando alguns metros à frente outra placa dizia: Lago Escondido – acesso a 50 metros.
Rimos muito.
A fome já apertava a esta hora (mais de 4 da tarde) e vocês sabem os efeitos da fome sobre o meu humor. Paramos na Bahia Lopez, uma pequena praia ao lado de preciosa montanha, mas o restaurante estava fechado.
Seguimos até a Colônia Suíça que hoje é um centro de artesanato com algumas construções históricas (escola e igreja foi o que vimos).
Almoçamos uma truta deliciosa e voltamos à estrada principal.
Numa curva avistamos algumas pessoas paradas no acostamento tomando mate em círculo.
Nos perguntamos quem seriam os loucos a parar para tomar mate na estrada.
Bem, loucos estávamos nós.
Era o ponto panorâmico, tão indescritivelmente lindo que vou deixar para quando vocês vierem aqui ou virem as fotos.
Não digo nada, me recuso a fazê-lo.
Passamos novamente perto da Bahia Lopes e avistamos uma prainha com um canal que une o Lago Nahuel Huapi ao Lago Moreno.
Descemos e foi ali nosso primeiro encontro com as gélidas águas que atravessamos com coragem e impulsionados pelo sol que se fazia forte ainda às 6 da tarde.
Tomamos sol, conversamos, Daniela e eu nos aventuramos do outro lado por uma linda trilha e tiramos, para variar, muitas fotos.
Ir à praia fechou com chave de ouro nosso primeiro dia.
domingo, 7 de dezembro de 2008
Vó Alice e Psiquê

Era uma noite fria de julho e eu seguia pela Avenida Paulista a caminho de casa.
Ao passar diante de um dos inúmeros bancos que se alinham na avenida mais rica da cidade mais rica do estado mais rico do país, ouvi miados que vinham de uma mureta..
Uma gatinha titiritava de frio iluminada pelos holofotes do jardim.
Até hoje eu me indago se alguém a teria colocado ali de propósito, bem ao alcance do coração e das mãos.
Era uma gato comum, um filhote de pêlo listrado cinza e preto.
Não pude resistir e parei para vê-la melhor.
Um casal fazia carinho nela, mas não se interessou por acolhê-la:
- Por que você não leva para a sua casa? - foi a pergunta da moça.
Fiz um cafuné na cabeça da gatinha e ela se enroscou em minha mão.
Na minha casa?
Depois de dois casamentos desfeitos e de alguns namoros pela primeira vez na vida eu morava sozinha. Minha filha fazia o primeiro ano da faculdade de Psicologia em outra cidade e eu só a via nos finais de semana que era quando eu também encontrava meu namorado.
Na minha casa? Não, definitivamente não.
Mas tampouco poderia deixar aquela gatinha ali com o frio que fazia.
Coloquei a gatinha no meu colo e segui caminhando até o meu prédio (não mais na rua mais rica nem no bairro mais rico desta imensa cidade).
Durante todo o trajeto ela se aninhara em meus braços como se sempre tivesse estado ali. Fui fazendo carinho, conversando e caminhando e ela confiou em mim o tempo todo, não tentando escapar, mas ronrronando de contentamento.
E prosseguiu confiando nos dias que se seguiram:
- É só por uma noite.
- É só até você crescer e ficar mais forte.
- É só se você aprender a se comportar.
- Boa noite, minha gata querida, como você está?
- Ah, gatinha querida, que bom que você está aqui! Que linda que você é! Adoro você e não vou abandoná-la.
Quando meu namorado e minha filha a viram também se encantaram por ela.
Por sugestão de minha filha lhe demos o nome de Psiquê. Sua raça, vira-lata brasileira, estava sendo extremamente valorizada nos Estados Unidos onde um exemplar valia doze mil dólares por isso, às vezes nós a chamávamos de 12 K.
Mas o valor dela era imensamente maior do que doze mil dólares para mim.
Naquele mesmo mês eu estava perdendo Vó Alice, minha avozinha querida.
O mal de Alzheimer que a levara aos pouquinhos havia se agravado e poder cuidar um pouco dela nos seus últimos dias foi um dos maiores presentes que a vida me deu. Poder dedicar meu afeto e meu carinho a quem havia sido uma referência de amor generoso e despreendido ensinou-me mais que anos de análise.
Minha vida inteira fôra repleta de mudanças, de laços desfeitos, de amizades perdidas, de pessoas e gatos que se foram ou que morreram. Morria de inveja das pessoas que tinham uma casa de infância. Nem mesmo uma cidade da infância eu tivera! O lugar onde eu morara por mais tempo fôra em algumas cidades do Vale do Paraíba.
Em Volta Redonda, a cidade onde morava minha avó e onde eu nasci, o rio Paraíba faz uma volta, o que me inspirara certa vez:
Rio Paraíba do Sul
Não sou de qualquer lugar,
Sou do Rio,
Sou o rio,
O Rio Paraíba que avança para o mar.
Sou todas as voltas que o rio dá.
Ao longo de minha confusa rota,
Acelero, páro, viro poça,
Se me perguntam:
De onde você é?
Eu me pergunto:
Esta dor, de quando é?
De onde esta busca por um leito?
De quando o gosto por desbarrancar?
De onde esta enchente de lágrimas?
Quando o encontro com o mar?
Ai, a dor de não pertencer!
Ai, o horror de estagnar!
Quando é que pára este medo?
O que fazer para amar?
Ao cuidar de minha avó sem qualquer esperança de que ela me reconhecesse, cuidar apenas, porque eu a amava e queria que sua partida fosse menos dolorosa e mais leve, eu me senti amando incondicionalmente, me entregando como sempre fora meu sonho.
A última vez que eu a vi fisicamente bem havia conversado com ela por um bom tempo na sala quando ela me pediu que a conduzisse ao banheiro.
Antes de fechar a porta ela me perguntou:
- Como é mesmo seu nome?
- Katia
- Ah, eu não me esqueço mais. Tenho uma neta com este nome que eu amo muito.
Sorri com lágrimas nos olhos.
Qual a importância de ser reconhecida quando se tem a certeza de um amor tão profundo?
Meses mais tarde o chamado de meus tios para que fôssemos visitá-la no hospital porque o final de sua vida se aproximava me assustou, mas a viagem de ônibus até Volta Redonda serviu para que eu me acalmasse e me preparasse para o que estava por vir.
Na minha família a morte é encarada de uma forma não muito tradicional. Meu avô já falecido acreditava na reencarnação e hoje a maioria de nós acredita também.
Foi comovente ver como todos os seus filhos, netos e bisnetos a cercaram de carinho, preocupados não só com seu bem-estar físico, mas com a necessidade de tornar aquela passagem um momento de iluminação e crescimento para todos; um adeus dolorido, mas temporário.
No entanto, vovó tivera uma educação religiosa bastante rígida e eu podia sentir que ela estava com medo.
Quando cheguei ao hospital ela não falava mais, balbuciava algo incompreensível com profunda aflição.
Perguntei o que ela costumava falar antes de perder a capacidade de articulação e me disseram que ela não falava mais, apenas rezava.
Pude então entender o “Av, av” que se parecia às vezes com “ae, ae” e, segurando em suas mãos, rezei junto com ela: “Ave Maria, cheia de graça o Senhor é convosco...” como tantas vezes ela havia feito comigo antes de dormir. Ela se acalmou, mas eu ainda não podia compreender este medo tão grande.
Só fui capaz de entendê-la quando dias mais tarde eu mesma tive um sonho muito significativo. Eu estava na praia e o dia ia terminando. A maré estava baixa, o sol já se fora e a era hora de partir, de voltar para casa. Havia um morro para atravessar e eu me vi com muito, muito medo.
Era um caminho tão desconhecido, estava tão escuro! Hesitei muito; eu estava apavorada.
O que iria me acontecer? Que perigos me esperavam naquela mata densa? O que eu iria encontrar do outro lado do morro?
Neste instante duas pessoas se aproximaram de mim e disseram: “nós vamos acompanhá-la, não se preocupe.” Criei coragem e pude então começar minha subida. Acordei nesta manhã muito tranqüila.
Na minha próxima visita já não estranhei ao ler em seus olhos o medo da morte e das possíveis conseqüências, o medo da partida. Eu sentira este medo, eu a entendia.
Depois de algum tempo quando todos saíram e eu fiquei sozinha com ela, toquei seu rosto abatido, fiz longos carinhos em seus cabelos impressionantemente finos e brancos, rezei e me ouvi dizendo:
- Vovó, não tenha medo, a senhora não está sozinha. Há muita gente aqui para ajudar a senhora. Neste instante mesmo, eles estão aqui neste quarto ao seu lado, sabia, vovó querida?
- Eu sei - ela respondeu claramente para minha surpresa.
E assim, a cada visita, meu coração foi se curando e eu fui aprendendo a cuidar, a amar incondicionalmente e a usar o que minha intuição (ou anjos ou espíritos como queiram chamar) me dizia para usar no sentido de ajudar minha amada avózinha.
Com a sua morte um imenso bloco de gelo derreteu-se em meu coração e Psiquê quase morreu afogada nesta grande onda de amor derretido.
Eu precisava muito cuidar de alguém.
Por que eu me apeguei tanto a esta gata? Porque gostar não tem porquês. Eu gostava dela e a cada dia me descobria mais tolerante, mais compassiva, mais preocupada com seu bem-estar.
Deixei de encarar suas travessuras como algo feito contra mim, mas como o instinto animal em ação; perdoei, apreciei, me entreguei a este afeto como raras vezes na vida.
Minha filha à princípio ficou com justificado ciúme. Felizmente ela pôde ver as trasnformações que a gata operava em mim e se entregou ela mesma ao afeto pela gata, algo que nela é completamente natural.
Enquanto morei sozinha compartilhei com Psiquê uma rotina matinal que só foi interrompida quando me casei com meu namorado.
Eu acordava e ia pegar o jornal na porta do apartamento. A partir daí ela me seguia.
Ela se lambia inteira enquanto eu me banhava e prosseguia em sua toalete enquanto eu me vestia.
Um pouco de ração no prato dela e um bocado de cereal no meu potinho.
Ela comia na área de serviço e depois ficava aos meus pés.
Com o tempo descobri que ela adorava mamão papaya. Eu deixava as sementes e a casca raspada para ela que, a partir daí, deixou em paz as minhas plantas. O mamão supria as necessidades dela de comer vegetais.
Eu voltava para o quarto e para o banheiro e lá vinha Psiquê em meu encalço.
Ela passava o dia inteiro sozinha e quando eu voltava à noite a primeira coisa que fazia era cuidar da sua comida, da sua água e da sua caixa de areia.
- Rrrrrr, ela ronronava satisfeita.
Se por acaso eu chegasse e fosse falar ao telefone, ela me rodiava incansável e aborrecida até que eu fosse cuidar dela.
- Ela te educou direitinho - dizia meu namorado.
Um pouco de colo, muito carinho e, principalmente, minha voz conversando com ela faziam parte da sua “ração diária”, tão essencial à vida quanto os cuidados físicos.
Aprendi a cuidar, a me preocupar, a levar em conta as necessidades do outro antes de pensar em mim.
Eu estava pronta para a maternidade!
Levara quarenta anos para me preparar. Neste meio tempo havia sido mãe, esposa, amiga, dona de outros gatos, mas Psiquê entrou na minha vida no momento em que eu descobria que não precisava temer o afeto, o apego, a perda.
Esta convivência amorosa calou diálogos internos que me atormentaram por toda a vida: devo amar esta pessoa? Por que? Estou sendo amada na mesma proporção? Mas, principalmente: será que eu vou perdê-la?
Aprendi a amar simplesmente: minha filha, meu marido, meus pais, minha família universal.
“Se ali se vai Alice,
Aqui na verdade fica Alice,
Nos troncos, galhos e folhas
De suas generosas raízes”
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Manhã de sábado

Saio da lavanderia e sigo andando pela Cincinato Braga, contornando o quarteirão pela Brigadeiro até chegar na Fausto Ferraz onde moro.
Sou tocada, atingida em cheio pela beleza e singularidade das coisas comuns, aquelas com as quais a gente se acostuma e nem percebe mais.
Passa por mim e entra na igreja uma senhora que reconheço: maquilagem exagerada, os cabelos presos numa profusão de grampos, seria uma personagem quase cômica não fosse o fervor que coloca em cada gesto ao coordenar a participação da comunidade nas missas.
No domingo de Páscoa do ano passado, sem qualquer aviso, ela me escolheu para levar o cálice com a hóstia até o altar para que fosse consagrada. Eu???? Freqüento a igreja apenas algumas vezes por ano! Estou mais para pecadora contumaz que para católica praticante! Caminhei pelo templo com a mesma emoção da minha primeira comunhão. Eu era criança, feliz e inocente novamente. As lágrimas rolaram sem que eu tentasse detê-las.
Agora, sábado de manhã, ela passa por mim compenetrada. Deve haver ensaio do coro.
Mais alguns passos e o vendedor de rosas as oferece para mim com o sorriso habitual sabendo que vai receber minha negativa habitual, mas mesmo assim mantendo sua alegria irresistível.
Duas senhoras interessam-se pela banquinha que vende chinelos, pantufas, mas a vendedora foi ao banheiro, informa o vendedor vizinho que tenta entretê-las enquando sua amiga não vem para que ela não perca a venda.
Passo pelo estacionamento do Extra. Há anos freqüento este supermercado. No começo, no tempo em que eu era muito boba, achava-o feio, sem graça, sem glamour.
Hoje comovo-me com as pessoas idosas e simples que o freqüentam.
À noite uma senhora costuma sentar-se nas cadeiras em frente aos caixas e, amparada na enorme bolsa que carrega, dorme. Precisei ver estas cenas algumas vezes para compreender que ela não está aguardando ninguém, que trata-se de uma pessoa sem teto que conta com a compreensão dos funcionários do supermercado para um temporário repouso.
Já tive encontros muito especiais com pessoas idosas com quem troquei palavras sábias, atitudes carinhosas e que iluminaram minha vida por alguns minutos .
Mas hoje não é nada especial que me comove.
É sim o movimento, os gestos comuns, as pessoas ativas me permitindo observar relances de suas vidas.
É a simples visão de alguém saindo do supermercado com uma sacola de compras que me aquece o coração.
Essa pessoa leva para casa o que comprou, preparará talvez uma refeição. O casal ali na frente divide o peso das sacolas entre si novamente com um olhar de compreensão.
Segundo John Lennon, “a vida é o que lhe acontece enquanto você faz planos” e eu estou vendo a vida se desenrolar na minha frente.
Engraçado como a gente não tem saudade de grandes fatos da vida, dos grandes acontecimentos.
A saudade maior (pelo menos no meu caso) é das pequenas coisas. Eu sei que um dia terei saudade das muitas vezes em que caminhei por este quarteirão.
Como na infância, lembra?
Lembra das nuvens formando desenhos no céu enquanto você “bestava” no quintal ? Lembra do facho de luz entrando pela janela e iluminando partículas de poeira em suspensão? Lembra de ficar deitado observando os padrões do azulejo ou do nó da madeira nos móveis? E de ficar lendo na cama comendo goiaba enquanto lia Monteiro Lobato?
Aposto que você se recorda com carinho da caminhada até a escola, daqueles vizinhos “comuns” de quem hoje você se lembra com ternura, do cheiro de arroz sendo refogado, do cheiro de caderno recém-encapado no início do ano letivo. E isso persiste pela vida adulta afora, geralmente a gente só se dá conta de quantas pequenas e importantes coisas formam a riqueza de nossa vida depois que não as temos mais.
Não, não quero que a vida seja congelada, que a gente se apegue a tudo, que a gente rejeite mudanças por valorizar o estado atual.
Mas hoje proponho um olhar diferente, mais terno, mais compassivo sobre cada um dos fios que formam o colorido tecido de nossas vidas.
Que trama linda a minha! E vocês fazem parte dela!
Obrigada,
Escrito em 2003 (eu acho)
Sou tocada, atingida em cheio pela beleza e singularidade das coisas comuns, aquelas com as quais a gente se acostuma e nem percebe mais.
Passa por mim e entra na igreja uma senhora que reconheço: maquilagem exagerada, os cabelos presos numa profusão de grampos, seria uma personagem quase cômica não fosse o fervor que coloca em cada gesto ao coordenar a participação da comunidade nas missas.
No domingo de Páscoa do ano passado, sem qualquer aviso, ela me escolheu para levar o cálice com a hóstia até o altar para que fosse consagrada. Eu???? Freqüento a igreja apenas algumas vezes por ano! Estou mais para pecadora contumaz que para católica praticante! Caminhei pelo templo com a mesma emoção da minha primeira comunhão. Eu era criança, feliz e inocente novamente. As lágrimas rolaram sem que eu tentasse detê-las.
Agora, sábado de manhã, ela passa por mim compenetrada. Deve haver ensaio do coro.
Mais alguns passos e o vendedor de rosas as oferece para mim com o sorriso habitual sabendo que vai receber minha negativa habitual, mas mesmo assim mantendo sua alegria irresistível.
Duas senhoras interessam-se pela banquinha que vende chinelos, pantufas, mas a vendedora foi ao banheiro, informa o vendedor vizinho que tenta entretê-las enquando sua amiga não vem para que ela não perca a venda.
Passo pelo estacionamento do Extra. Há anos freqüento este supermercado. No começo, no tempo em que eu era muito boba, achava-o feio, sem graça, sem glamour.
Hoje comovo-me com as pessoas idosas e simples que o freqüentam.
À noite uma senhora costuma sentar-se nas cadeiras em frente aos caixas e, amparada na enorme bolsa que carrega, dorme. Precisei ver estas cenas algumas vezes para compreender que ela não está aguardando ninguém, que trata-se de uma pessoa sem teto que conta com a compreensão dos funcionários do supermercado para um temporário repouso.
Já tive encontros muito especiais com pessoas idosas com quem troquei palavras sábias, atitudes carinhosas e que iluminaram minha vida por alguns minutos .
Mas hoje não é nada especial que me comove.
É sim o movimento, os gestos comuns, as pessoas ativas me permitindo observar relances de suas vidas.
É a simples visão de alguém saindo do supermercado com uma sacola de compras que me aquece o coração.
Essa pessoa leva para casa o que comprou, preparará talvez uma refeição. O casal ali na frente divide o peso das sacolas entre si novamente com um olhar de compreensão.
Segundo John Lennon, “a vida é o que lhe acontece enquanto você faz planos” e eu estou vendo a vida se desenrolar na minha frente.
Engraçado como a gente não tem saudade de grandes fatos da vida, dos grandes acontecimentos.
A saudade maior (pelo menos no meu caso) é das pequenas coisas. Eu sei que um dia terei saudade das muitas vezes em que caminhei por este quarteirão.
Como na infância, lembra?
Lembra das nuvens formando desenhos no céu enquanto você “bestava” no quintal ? Lembra do facho de luz entrando pela janela e iluminando partículas de poeira em suspensão? Lembra de ficar deitado observando os padrões do azulejo ou do nó da madeira nos móveis? E de ficar lendo na cama comendo goiaba enquanto lia Monteiro Lobato?
Aposto que você se recorda com carinho da caminhada até a escola, daqueles vizinhos “comuns” de quem hoje você se lembra com ternura, do cheiro de arroz sendo refogado, do cheiro de caderno recém-encapado no início do ano letivo. E isso persiste pela vida adulta afora, geralmente a gente só se dá conta de quantas pequenas e importantes coisas formam a riqueza de nossa vida depois que não as temos mais.
Não, não quero que a vida seja congelada, que a gente se apegue a tudo, que a gente rejeite mudanças por valorizar o estado atual.
Mas hoje proponho um olhar diferente, mais terno, mais compassivo sobre cada um dos fios que formam o colorido tecido de nossas vidas.
Que trama linda a minha! E vocês fazem parte dela!
Obrigada,
Escrito em 2003 (eu acho)
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Rede do Bem
As lembranças do dia me invadem e me aquecem nesta noite gelada:
Abraços, muitos e muitos abraços de pessoas queridas e admiradas, uma reunião por telefone com pesquisadores idealistas, felizes encontros com colegas no escritório, o sucesso no trabalho voluntário de minha filha e sua amiga, boas novas sobre o andamento da construção do centro de educação ambiental do qual faço parte, conexões com uma fundação que se dedica a apoiar menores na zona rural, enfim um dia de contato com pessoas que se empenham na construção de um mundo melhor e que estão se unindo em parcerias onde todos ganham e o efeito é exponencialmente benéfico para a vida das comunidades.
No meio disto tudo uma conversa com pessoas do chamado “mundo real”, bem-sucedidos e competentes homens de negócios agarrados ao modelo tradicional que preconiza que “os recursos são limitados e as necessidades, ilimitadas” e que, portanto, baseia-se na competição e na exclusão dos mais fracos.
Pela primeira vez na vida não tentei convencê-los ou fiquei revoltada.
Olhei-os com legítima e amorosa compaixão.
Compreendi o que os movia, compreendi porque eles colocavam tanto de sua energia em ganhar dinheiro desta forma: o medo, a falta de confiança.
Percebi que eu não poderia atingi-los com minhas palavras, modificar suas ações ou visões enquanto eles fossem prisioneiros deste medo.
De nada adiantaria dizer-lhes que havia uma fonte de alegria jorrando ao seu lado para saciar sua sede de uma forma que o dinheiro jamais faria.
Eu mesma já lutei desesperadamente para obter segurança financeira, eu mesma me pego muitas vezes apavorada e ligando-me a energias destrutivas.
Mas hoje, especialmente hoje, eu me reconheço riquíssima, milionária, segura, amparada, confiante.
Hoje eu me dei conta da quantidade enorme, avassaladora de exemplos de pessoas boas e de ações boas que me rodeiam.
Eu lido cotidianamente com o Bem.
Ele me cerca, me inunda, me sustenta.
À noite, caminhava pelas ruas desertas e fui assaltada, mas não era um ladrão.
Assaltou-me sim uma vontade imensa de conclamar as pessoas para caminhar novamente pelas ruas.
Quem ganha dinheiro com o medo que nos impede de ocupar as ruas?
Fabricantes de automóveis, seguradoras, empresas de segurança, academias onde “se paga para andar sem sair do lugar” como definiu um amigo meu, etc., etc.
Expandindo isso para outras áreas da vida, quão dominados somos pelo medo?
O medo da baixa qualidade da educação pública me fez pagar uma escola particular para minha filha na tentativa de torná-la mais competitiva quando ela chegasse ao mercado de trabalho. O medo da baixa qualidade dos serviços públicos de saúde me fizeram pagar planos de saúde nos últimos 30 anos. O medo da qualidade ruim da programação da TV aberta me fez assinar uma TV a cabo. O medo da poluição me fez comprar um sítio. O medo da solidão nos faz enlouquecer na busca pela beleza e perfeição físicas. E por aí vai, cada um de nós pagando para obter aquilo que teríamos muito mais facilmente se nos uníssemos.
É muito simples dizer que há uma grande articulação econômica que faz com que a gente acredite estarmos sós se tentarmos mudar o mundo.
Até acho que a elite econômica se aproveita disso.
Mas não posso ver a própria elite com seus carros blindados, seguranças e total afastamento da realidade dos menos favorecidos senão com compaixão.
Não há seres tão cruéis assim! Há, isto sim, em todas as camadas sociais, vítimas da ignorância que nos faz medrosos.
Medrosos agimos de forma egoísta.
Medrosos agredimos e competimos.
E isto inclui todos nós quando estamos desequilibrados e também empresários gananciosos, políticos corruptos, bandidos, traficantes e viciados, colegas de trabalho ambiciosos e desleais, pais e mães em conflito com seus filhos, adolescentes revoltados.
Ignoramos que este é o caminho mais difícil para se obter equilíbrio e sabedoria.
Ignoramos que o Bem atua no momento em que é acionado, no momento em que nos conectamos e nos entregamos a ele. E o que nos parece serem milagres são, na verdade, conseqüências naturais.
Nós O vemos agindo em nossas famílias, nos gestos de carinho e gentileza entre vizinhos e amigos, e enxergamos nessas ações exceções à regra.
Mas o Bem é a regra! Ele é a única realidade.
Todo o resto são criações do nosso medo, da nossa falta de confiança.
O que chamam de realidade não passa de uma imensa e coletiva ilusão.
O mundo atual está construído em cima desta ilusão e ele está ruindo.
Sistemas econômicos e políticos, estruturas da sociedade são uma construção feita com base em falsas premissas que não passam de reflexos das premissas que dominaram nossos corações encobrindo o que é real.
Quando nossos corações se libertarem do medo o mundo também mudará.
Eu poderia passar a madrugada inteira me lembrando de pessoas que me ajudaram, de exemplos de obras amorosas, de grupos sociais, religiosos, educacionais, científicos, de gestos de honestidade, de provas do Bem que nos cerca. Nos últimos tempos, depois da extração do câncer, busquei uma vida mais saudável em todos os sentidos e o resultado foi que eu fui colocada numa trilha onde abundam estes exemplos.
Mas não preciso.
Seriam apenas repetitivos exemplos do que é o normal. Não preciso me dar conta da respiração e da digestão acontecendo em meu corpo, da existência da atmosfera do planeta impedindo que a gente congele ou derreta, da força da gravidade mantendo meus pés no chão.
São coisas normais, é assim simplesmente.
Alegro-me não pela existência do Bem, mas por reconhecê-lo finalmente em toda a parte.
Nunca mais me referirei a alguém como “uma pessoa boa” ou “do bem”.
Ao invés disso direi é “alguém que já descobriu que é uma pessoa boa”.
Que possamos contribuir para que os que nos cercam façam esta descoberta.
Que consigamos visualizar o Bem mesmo onde o Medo nos diga que há uma ameaça.
Que nos libertemos do Medo.
Amém.
Maio de 2004
Abraços, muitos e muitos abraços de pessoas queridas e admiradas, uma reunião por telefone com pesquisadores idealistas, felizes encontros com colegas no escritório, o sucesso no trabalho voluntário de minha filha e sua amiga, boas novas sobre o andamento da construção do centro de educação ambiental do qual faço parte, conexões com uma fundação que se dedica a apoiar menores na zona rural, enfim um dia de contato com pessoas que se empenham na construção de um mundo melhor e que estão se unindo em parcerias onde todos ganham e o efeito é exponencialmente benéfico para a vida das comunidades.
No meio disto tudo uma conversa com pessoas do chamado “mundo real”, bem-sucedidos e competentes homens de negócios agarrados ao modelo tradicional que preconiza que “os recursos são limitados e as necessidades, ilimitadas” e que, portanto, baseia-se na competição e na exclusão dos mais fracos.
Pela primeira vez na vida não tentei convencê-los ou fiquei revoltada.
Olhei-os com legítima e amorosa compaixão.
Compreendi o que os movia, compreendi porque eles colocavam tanto de sua energia em ganhar dinheiro desta forma: o medo, a falta de confiança.
Percebi que eu não poderia atingi-los com minhas palavras, modificar suas ações ou visões enquanto eles fossem prisioneiros deste medo.
De nada adiantaria dizer-lhes que havia uma fonte de alegria jorrando ao seu lado para saciar sua sede de uma forma que o dinheiro jamais faria.
Eu mesma já lutei desesperadamente para obter segurança financeira, eu mesma me pego muitas vezes apavorada e ligando-me a energias destrutivas.
Mas hoje, especialmente hoje, eu me reconheço riquíssima, milionária, segura, amparada, confiante.
Hoje eu me dei conta da quantidade enorme, avassaladora de exemplos de pessoas boas e de ações boas que me rodeiam.
Eu lido cotidianamente com o Bem.
Ele me cerca, me inunda, me sustenta.
À noite, caminhava pelas ruas desertas e fui assaltada, mas não era um ladrão.
Assaltou-me sim uma vontade imensa de conclamar as pessoas para caminhar novamente pelas ruas.
Quem ganha dinheiro com o medo que nos impede de ocupar as ruas?
Fabricantes de automóveis, seguradoras, empresas de segurança, academias onde “se paga para andar sem sair do lugar” como definiu um amigo meu, etc., etc.
Expandindo isso para outras áreas da vida, quão dominados somos pelo medo?
O medo da baixa qualidade da educação pública me fez pagar uma escola particular para minha filha na tentativa de torná-la mais competitiva quando ela chegasse ao mercado de trabalho. O medo da baixa qualidade dos serviços públicos de saúde me fizeram pagar planos de saúde nos últimos 30 anos. O medo da qualidade ruim da programação da TV aberta me fez assinar uma TV a cabo. O medo da poluição me fez comprar um sítio. O medo da solidão nos faz enlouquecer na busca pela beleza e perfeição físicas. E por aí vai, cada um de nós pagando para obter aquilo que teríamos muito mais facilmente se nos uníssemos.
É muito simples dizer que há uma grande articulação econômica que faz com que a gente acredite estarmos sós se tentarmos mudar o mundo.
Até acho que a elite econômica se aproveita disso.
Mas não posso ver a própria elite com seus carros blindados, seguranças e total afastamento da realidade dos menos favorecidos senão com compaixão.
Não há seres tão cruéis assim! Há, isto sim, em todas as camadas sociais, vítimas da ignorância que nos faz medrosos.
Medrosos agimos de forma egoísta.
Medrosos agredimos e competimos.
E isto inclui todos nós quando estamos desequilibrados e também empresários gananciosos, políticos corruptos, bandidos, traficantes e viciados, colegas de trabalho ambiciosos e desleais, pais e mães em conflito com seus filhos, adolescentes revoltados.
Ignoramos que este é o caminho mais difícil para se obter equilíbrio e sabedoria.
Ignoramos que o Bem atua no momento em que é acionado, no momento em que nos conectamos e nos entregamos a ele. E o que nos parece serem milagres são, na verdade, conseqüências naturais.
Nós O vemos agindo em nossas famílias, nos gestos de carinho e gentileza entre vizinhos e amigos, e enxergamos nessas ações exceções à regra.
Mas o Bem é a regra! Ele é a única realidade.
Todo o resto são criações do nosso medo, da nossa falta de confiança.
O que chamam de realidade não passa de uma imensa e coletiva ilusão.
O mundo atual está construído em cima desta ilusão e ele está ruindo.
Sistemas econômicos e políticos, estruturas da sociedade são uma construção feita com base em falsas premissas que não passam de reflexos das premissas que dominaram nossos corações encobrindo o que é real.
Quando nossos corações se libertarem do medo o mundo também mudará.
Eu poderia passar a madrugada inteira me lembrando de pessoas que me ajudaram, de exemplos de obras amorosas, de grupos sociais, religiosos, educacionais, científicos, de gestos de honestidade, de provas do Bem que nos cerca. Nos últimos tempos, depois da extração do câncer, busquei uma vida mais saudável em todos os sentidos e o resultado foi que eu fui colocada numa trilha onde abundam estes exemplos.
Mas não preciso.
Seriam apenas repetitivos exemplos do que é o normal. Não preciso me dar conta da respiração e da digestão acontecendo em meu corpo, da existência da atmosfera do planeta impedindo que a gente congele ou derreta, da força da gravidade mantendo meus pés no chão.
São coisas normais, é assim simplesmente.
Alegro-me não pela existência do Bem, mas por reconhecê-lo finalmente em toda a parte.
Nunca mais me referirei a alguém como “uma pessoa boa” ou “do bem”.
Ao invés disso direi é “alguém que já descobriu que é uma pessoa boa”.
Que possamos contribuir para que os que nos cercam façam esta descoberta.
Que consigamos visualizar o Bem mesmo onde o Medo nos diga que há uma ameaça.
Que nos libertemos do Medo.
Amém.
Maio de 2004
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