quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Manhã de sábado


Saio da lavanderia e sigo andando pela Cincinato Braga, contornando o quarteirão pela Brigadeiro até chegar na Fausto Ferraz onde moro.
Sou tocada, atingida em cheio pela beleza e singularidade das coisas comuns, aquelas com as quais a gente se acostuma e nem percebe mais.
Passa por mim e entra na igreja uma senhora que reconheço: maquilagem exagerada, os cabelos presos numa profusão de grampos, seria uma personagem quase cômica não fosse o fervor que coloca em cada gesto ao coordenar a participação da comunidade nas missas.
No domingo de Páscoa do ano passado, sem qualquer aviso, ela me escolheu para levar o cálice com a hóstia até o altar para que fosse consagrada. Eu???? Freqüento a igreja apenas algumas vezes por ano! Estou mais para pecadora contumaz que para católica praticante! Caminhei pelo templo com a mesma emoção da minha primeira comunhão. Eu era criança, feliz e inocente novamente. As lágrimas rolaram sem que eu tentasse detê-las.
Agora, sábado de manhã, ela passa por mim compenetrada. Deve haver ensaio do coro.
Mais alguns passos e o vendedor de rosas as oferece para mim com o sorriso habitual sabendo que vai receber minha negativa habitual, mas mesmo assim mantendo sua alegria irresistível.
Duas senhoras interessam-se pela banquinha que vende chinelos, pantufas, mas a vendedora foi ao banheiro, informa o vendedor vizinho que tenta entretê-las enquando sua amiga não vem para que ela não perca a venda.
Passo pelo estacionamento do Extra. Há anos freqüento este supermercado. No começo, no tempo em que eu era muito boba, achava-o feio, sem graça, sem glamour.
Hoje comovo-me com as pessoas idosas e simples que o freqüentam.
À noite uma senhora costuma sentar-se nas cadeiras em frente aos caixas e, amparada na enorme bolsa que carrega, dorme. Precisei ver estas cenas algumas vezes para compreender que ela não está aguardando ninguém, que trata-se de uma pessoa sem teto que conta com a compreensão dos funcionários do supermercado para um temporário repouso.
Já tive encontros muito especiais com pessoas idosas com quem troquei palavras sábias, atitudes carinhosas e que iluminaram minha vida por alguns minutos .
Mas hoje não é nada especial que me comove.
É sim o movimento, os gestos comuns, as pessoas ativas me permitindo observar relances de suas vidas.
É a simples visão de alguém saindo do supermercado com uma sacola de compras que me aquece o coração.
Essa pessoa leva para casa o que comprou, preparará talvez uma refeição. O casal ali na frente divide o peso das sacolas entre si novamente com um olhar de compreensão.
Segundo John Lennon, “a vida é o que lhe acontece enquanto você faz planos” e eu estou vendo a vida se desenrolar na minha frente.
Engraçado como a gente não tem saudade de grandes fatos da vida, dos grandes acontecimentos.
A saudade maior (pelo menos no meu caso) é das pequenas coisas. Eu sei que um dia terei saudade das muitas vezes em que caminhei por este quarteirão.
Como na infância, lembra?
Lembra das nuvens formando desenhos no céu enquanto você “bestava” no quintal ? Lembra do facho de luz entrando pela janela e iluminando partículas de poeira em suspensão? Lembra de ficar deitado observando os padrões do azulejo ou do nó da madeira nos móveis? E de ficar lendo na cama comendo goiaba enquanto lia Monteiro Lobato?
Aposto que você se recorda com carinho da caminhada até a escola, daqueles vizinhos “comuns” de quem hoje você se lembra com ternura, do cheiro de arroz sendo refogado, do cheiro de caderno recém-encapado no início do ano letivo. E isso persiste pela vida adulta afora, geralmente a gente só se dá conta de quantas pequenas e importantes coisas formam a riqueza de nossa vida depois que não as temos mais.
Não, não quero que a vida seja congelada, que a gente se apegue a tudo, que a gente rejeite mudanças por valorizar o estado atual.
Mas hoje proponho um olhar diferente, mais terno, mais compassivo sobre cada um dos fios que formam o colorido tecido de nossas vidas.
Que trama linda a minha! E vocês fazem parte dela!
Obrigada,

Escrito em 2003 (eu acho)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Rede do Bem

As lembranças do dia me invadem e me aquecem nesta noite gelada:
Abraços, muitos e muitos abraços de pessoas queridas e admiradas, uma reunião por telefone com pesquisadores idealistas, felizes encontros com colegas no escritório, o sucesso no trabalho voluntário de minha filha e sua amiga, boas novas sobre o andamento da construção do centro de educação ambiental do qual faço parte, conexões com uma fundação que se dedica a apoiar menores na zona rural, enfim um dia de contato com pessoas que se empenham na construção de um mundo melhor e que estão se unindo em parcerias onde todos ganham e o efeito é exponencialmente benéfico para a vida das comunidades.
No meio disto tudo uma conversa com pessoas do chamado “mundo real”, bem-sucedidos e competentes homens de negócios agarrados ao modelo tradicional que preconiza que “os recursos são limitados e as necessidades, ilimitadas” e que, portanto, baseia-se na competição e na exclusão dos mais fracos.
Pela primeira vez na vida não tentei convencê-los ou fiquei revoltada.
Olhei-os com legítima e amorosa compaixão.
Compreendi o que os movia, compreendi porque eles colocavam tanto de sua energia em ganhar dinheiro desta forma: o medo, a falta de confiança.
Percebi que eu não poderia atingi-los com minhas palavras, modificar suas ações ou visões enquanto eles fossem prisioneiros deste medo.
De nada adiantaria dizer-lhes que havia uma fonte de alegria jorrando ao seu lado para saciar sua sede de uma forma que o dinheiro jamais faria.
Eu mesma já lutei desesperadamente para obter segurança financeira, eu mesma me pego muitas vezes apavorada e ligando-me a energias destrutivas.
Mas hoje, especialmente hoje, eu me reconheço riquíssima, milionária, segura, amparada, confiante.
Hoje eu me dei conta da quantidade enorme, avassaladora de exemplos de pessoas boas e de ações boas que me rodeiam.
Eu lido cotidianamente com o Bem.
Ele me cerca, me inunda, me sustenta.
À noite, caminhava pelas ruas desertas e fui assaltada, mas não era um ladrão.
Assaltou-me sim uma vontade imensa de conclamar as pessoas para caminhar novamente pelas ruas.
Quem ganha dinheiro com o medo que nos impede de ocupar as ruas?
Fabricantes de automóveis, seguradoras, empresas de segurança, academias onde “se paga para andar sem sair do lugar” como definiu um amigo meu, etc., etc.
Expandindo isso para outras áreas da vida, quão dominados somos pelo medo?
O medo da baixa qualidade da educação pública me fez pagar uma escola particular para minha filha na tentativa de torná-la mais competitiva quando ela chegasse ao mercado de trabalho. O medo da baixa qualidade dos serviços públicos de saúde me fizeram pagar planos de saúde nos últimos 30 anos. O medo da qualidade ruim da programação da TV aberta me fez assinar uma TV a cabo. O medo da poluição me fez comprar um sítio. O medo da solidão nos faz enlouquecer na busca pela beleza e perfeição físicas. E por aí vai, cada um de nós pagando para obter aquilo que teríamos muito mais facilmente se nos uníssemos.
É muito simples dizer que há uma grande articulação econômica que faz com que a gente acredite estarmos sós se tentarmos mudar o mundo.
Até acho que a elite econômica se aproveita disso.
Mas não posso ver a própria elite com seus carros blindados, seguranças e total afastamento da realidade dos menos favorecidos senão com compaixão.
Não há seres tão cruéis assim! Há, isto sim, em todas as camadas sociais, vítimas da ignorância que nos faz medrosos.
Medrosos agimos de forma egoísta.
Medrosos agredimos e competimos.
E isto inclui todos nós quando estamos desequilibrados e também empresários gananciosos, políticos corruptos, bandidos, traficantes e viciados, colegas de trabalho ambiciosos e desleais, pais e mães em conflito com seus filhos, adolescentes revoltados.
Ignoramos que este é o caminho mais difícil para se obter equilíbrio e sabedoria.
Ignoramos que o Bem atua no momento em que é acionado, no momento em que nos conectamos e nos entregamos a ele. E o que nos parece serem milagres são, na verdade, conseqüências naturais.
Nós O vemos agindo em nossas famílias, nos gestos de carinho e gentileza entre vizinhos e amigos, e enxergamos nessas ações exceções à regra.
Mas o Bem é a regra! Ele é a única realidade.
Todo o resto são criações do nosso medo, da nossa falta de confiança.
O que chamam de realidade não passa de uma imensa e coletiva ilusão.
O mundo atual está construído em cima desta ilusão e ele está ruindo.
Sistemas econômicos e políticos, estruturas da sociedade são uma construção feita com base em falsas premissas que não passam de reflexos das premissas que dominaram nossos corações encobrindo o que é real.
Quando nossos corações se libertarem do medo o mundo também mudará.
Eu poderia passar a madrugada inteira me lembrando de pessoas que me ajudaram, de exemplos de obras amorosas, de grupos sociais, religiosos, educacionais, científicos, de gestos de honestidade, de provas do Bem que nos cerca. Nos últimos tempos, depois da extração do câncer, busquei uma vida mais saudável em todos os sentidos e o resultado foi que eu fui colocada numa trilha onde abundam estes exemplos.
Mas não preciso.
Seriam apenas repetitivos exemplos do que é o normal. Não preciso me dar conta da respiração e da digestão acontecendo em meu corpo, da existência da atmosfera do planeta impedindo que a gente congele ou derreta, da força da gravidade mantendo meus pés no chão.
São coisas normais, é assim simplesmente.
Alegro-me não pela existência do Bem, mas por reconhecê-lo finalmente em toda a parte.
Nunca mais me referirei a alguém como “uma pessoa boa” ou “do bem”.
Ao invés disso direi é “alguém que já descobriu que é uma pessoa boa”.
Que possamos contribuir para que os que nos cercam façam esta descoberta.
Que consigamos visualizar o Bem mesmo onde o Medo nos diga que há uma ameaça.
Que nos libertemos do Medo.
Amém.
Maio de 2004

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Mulher de malandro

Toda mulher é mulher de malandro.
Sim, por favor. É este desejo secreto que todo homem bonzinho deveria conhecer.
As mulheres adoram os malandros. O malandro repara na roupa, traz flores, poemas ou convites para admirar o luar. Qual dos dois as mulheres preferem?
Casamo-nos com os bonzinhos (aliás, eles são do tipo de propor casamento), mas nos apaixonamos pelos malandros.
O bonzinho é correto, não mente, não trai, trabalha demais e descansa de pijama e chinelo na frente da TV. É como comparar um gato dos telhados com um cão domesticado!
Cruel?
Crueldade é se enfeitar esperando um convite, um elogio, uma cantada e receber de volta o suspiro desanimado de alguém diante de uma obrigação.
Não há uma regra, mas os bonzinhos geralmente são engenheiros, administradores, analistas de sistemas, militares, funcionários públicos, executivos da Produção, do Jurídico ou de qualquer área onde tenham que exercer continuamente o domínio da razão.
Os malandros?
Estes, quando trabalham, são publicitários, artistas, executivos de Marketing ou Vendas ou donos de empreendimentos incomuns, homens que vivem de expressar emoções.
Emoções verdadeiras? Nem sempre.
Assim como o bonzinho aprende cedo a se comportar, o malandro lida com a imagem, vive da imagem, apega-se a ela numa escravidão quase tão ferrenha quanto a do bonzinho.
É assim que ele fala mais do que sente, engana, ilude, cria e desfaz fantasias com a facilidade de um mago do amor.
É como se ele tivesse que reafirmar reiteradamente seu amor para torná-lo real. E ele ama? É claro que sim. Toda mulher que já se apaixonou por um malandro duvidou um dia disto, para concluir que, real ou verdadeiro, o amor dele é tão inebriante que vale a pena ser vivido. Flores sendo enviadas de uma cidade para a outra, recados incandescentes na secretária eletrônica, elogios que a fazem se sentir a mulher mais especial do mundo. O que mais uma mulher pode querer?
Um amor verdadeiro?
Por que não? Já que é muito difícil ensinar o malandro a amar verdadeiramente, fico me perguntando porque os homens bonzinhos não aprendem com os malandros a expressar suas emoções.
Tive um vizinho (malandro) que deveria dar aulas para todos os maridos do prédio, pois sabia como agradar à mulher amada. Surpresas como bilhetes nas calcinhas quando ele viajava ou finais de semana especiais para comemorar datas das quais ela nem se lembrava mais eram uma “rotina” na vida desta afortunada mulher.
Enquanto isto nós, suas vizinhas, ficávamos felizes quando nossos maridos se lembravam de passar pela locadora e encomendavam uma pizza para o sábado à noite.
Ciente de sua superioridade moral, o homem bonzinho só é abalado em seu torpor quando a mulher o troca por um malandro (eles são irresistíveis).
A dor profunda é manifestada, agora sim, na proporção inversa à falta de demonstração do amor.
Perdem os dois. A mulher vai descobrir rapidamente que, com raras exceções, aquela fumaça toda do malandro não escondia nenhum fogo mais duradouro.
Acostumada com a segurança e lealdade do amor canino, ou ela adquire fôlego de gata ou vai correndo para os braços do primeiro homem bonzinho que lhe aparecer pela frente.
Bonzinhos de todo o mundo, aprendei com os malandros!
Saiam do comodismo e esforcem-se para agradar sua amada.
Percam a timidez, façam carinho em público, tentem escrever poemas, façam loucuras, sonhem em dupla com o impossível, reservem tempo para o amor.
Vocês valem muito a pena, mas, desconheço produto bom que sobreviva sem propaganda.