sábado, 25 de julho de 2009

adoro abraços!

Não gosto tanto dos abraços de lado, disfarçados, mais para tapinhas nas costas que abraços.
Gosto de abraços inteiros, coração com coração, desejo de felicidade circulando direto entre duas pessoas.
Mas, também aceito os abraços de lado. O que fazer se, em alguns casos, o abraço inteiro não é possível?
Minha felicidade é diretamente proporcional à quantidade e qualidade dos abraços recebidos.
Se passo algum tempo com poucos ou nenhum abraço vou murchando, murchando como se a bateria fosse se descarregando.
Quando viajo e me encontro com culturas diferentes onde o abraço não é tão praticado, respeito as pessoas no momento do encontro cumprimentando-as com um aperto de mão.
Mas, se na despedida eu tiver simpatizado com elas e elas comigo, roubo-lhes logo um abraço e juro que nunca fui rejeitada ou perdi um contato, uma amizade ou um negócio por causa de abraços.
Pelo contrário, ganhei muitos amigos, criei, ampliei e depois preservei meus laços com o mundo através dos abraços.
Estava numa fila para ter um livro autografado quando notei que o autor estrangeiro, um conhecido mestre da auto-cura, estava murchando de tanta gente lhe contando seus problemas de saúde e lhe pedindo ajuda.
Cortei a fila, esperei uma brechinha e lhe disse:
- Acho que você precisa de um abraço, quer?
Ele aceitou de bom grado, eu voltei para o fim da fila e na minha vez trocamos outro abraço.
Aprendi a abraçar com meus pais, uns “abraçadores” de primeira.
Há alguns anos, depois de passar por uma crise em seu casamento, meu pai me contou um segredo que eu compartilho aqui:
- Descobri a fórmula para ser feliz com sua mãe. Troco um abraço forte com ela todas as vezes em que eu chego ou saio de casa. Neste abraço limpamos todas as mágoas, apagamos quaisquer palavras duras que tivermos trocado, reafirmamos nosso amor, refazemos nossa promessa de vida em comum.
Não é um mestre?
Não gosto de situações onde existam tantas pessoas que eu não posso abraçar a todas: festas muito grandes, cidades ou empresas impessoais. Não falo do abraço gratuito, gesto formal substituindo o aperto de mãos não. Falo de relações que me inspirem a abraçar, falo de comunidades que existem dentro de famílias, festas, cidades e empresas.
É isso! “Comunidade é um grupo de pessoas que trocam abraços sinceros”.
Não se trata de abraçar o mundo, mas se suas relações de afeto forem se ampliando, você em breve estará abraçando todo o seu mundo, todas as pessoas das comunidades das quais faça parte.
Meus abraços prediletos são os do reencontro.
É tão bom quando a gente revê uma pessoa querida e na surpresa do reencontro troca aquele abraço comemorativo como se o corpo inteiro estivesse suspirando de alegria!
Quantas vezes eu já não troquei abraços múltiplos porque a alegria era tamanha que um abraço só não a comportava!
Humm...
De abraços de despedida não sei se gosto.
Eles são inevitáveis. Ante a perspectiva da separação a gente tenta deixar com o outro um pouquinho de si e tenta levar um pouco do outro dentro do nosso coração.
Aí, as vezes dói, mas o importante nessas horas é manter a essência do abraço: deixar com o outro só o desejo de felicidade e levar consigo apenas o mesmo desejo. Só isso, nada mais, nem nada menos porque, afinal, não é essa a essência do amor?

sábado, 27 de junho de 2009

Dicas de uma caipira para se viver bem em São Paulo


São Paulo não foi minha primeira experiência de grande metrópole. Na verdade, o choque foi ainda maior quando saí do Vale do Paraíba para a Califórnia.
Imaginem de Taubaté para São Francisco sem tempo para amarrar o queixo para ele não cair! Minha adaptação foi muito boa: aprendi a não me chocar o tempo todo.
Tão boa que, já no Brasil, fui capaz de disfarçar meu espanto quando entendi que o primo de uma colega de trabalho havia lhe trazido ópio da Itália.  Perguntei com o ar mais cosmopolita que eu pude encontrar: 
- Ah, é? Ópio? E que tal? Você já experimentou? O que sentiu?
- Opium, Katia, Ives Saint Laurent, o perfume!
Depois disto, virar paulistana quando me mudei para São Paulo, foi bico.
E quase morro de tanta paulistanidade!
Stress, medo de assaltos, solidão, cansaço permanente, eu havia adotado o “quando em Roma, faça como os romanos”.
Bobagem! Quem foi que disse que São Paulo foi sempre assim?
Já ouvi muitos paulistanos ressentidos se queixarem por tanta gente ter “invadido” sua cidade e a transformado nesta metrópole assustadora.
Deve ter sido por causa de gente como eu que de forma caipira (no sentido pejorativo) resolveu deixar de lado seu modo de ser e virar cosmopolita.
Pois, nos últimos anos reassumi meu modo de ser caipira e nunca vivi tão bem.
Esta é apenas uma cidadezinha que se expandiu geograficamente, gente!
As pessoas que vivem aqui são gente como aquelas que habitam o interior, o Nordeste, as Minas Gerais, etc. São Paulo está cheia de caipiras, nascidos aqui ou não.
Só que elas receberam algumas lições que as impedem de viver em São Paulo.
Pois é, a a maioria delas mora em São Paulo, mas não vive de verdade aqui.
Então, estas são algumas constatações caipiras de quem aprendeu a gostar de viver em São Paulo (à sua maneira).
Algumas dicas podem parecer óbvias, mas se são tão óbvias assim, por que você ainda não as está praticando, uai?
Fale sempre com estranhos
Não tenha medo: fale com estranhos na fila do banco, no metrô, no supermercado, na academia. As pessoas estranham um pouco, a princípio, e algumas vão mesmo olhá-lo de cara feia. Não desanime, continue. Conversar amplia seus horizontes, faz passar o tempo mais depressa e pode ser muito divertido.
Por que imaginar que o estranho vai explorá-lo, aborrecê-lo, ou mesmo assassiná-lo?
Ele pode ser um grande amigo que você, por enquanto, desconhece.
Se você praticar bem a arte de puxar papo, ela vai ajudá-lo em outros momentos muito interessantes.
Minhas amigas caipiras não têm a menor dificuldade de estabelecer contatos e fazer amigos (e namorados). Elas não se queixam de solidão. Interessada ou desinteressadamente, elas simplesmente puxam papo.
Eu mesma já vivi romances maravilhosos que começaram a partir da conversa com um desconhecido. Se eu fosse esperar que amigos e parentes me apresentassem pessoas, teria perdido uma parte muito interessante da minha vida.
Se o outro for paulistano e você estiver interessada (agora é só para as mulheres), considere que, mesmo sendo homem, ele não tem o hábito de falar com estranhos.
Você tem que dar a ele esta oportunidade. No supermercado coloque distraidamente suas compras no carrinho dele, no trânsito pare para examinar um pneu supostamente furado, no trabalho, ah, no trabalho invente você mesma uma desculpa, pôxa! Jogue fora o medo e assuma a imaginação e a inteligência que você possui para não parecer “atirada” (isto faz parte das minhas lições de caipira) e dar a ele a magnífica oportunidade de falar com você.
Era um fim de tarde chuvoso quando eu vi um rapaz saindo do metrô e caminhando rápido pela Pamplona. Eu lhe ofereci (desinteressadamente, desta vez) carona no meu guarda-chuva. Descobrimos que éramos vizinhos e ele me convidou para tomar um café que eu não pude aceitar por estar com pressa.
Mas, quando não houver nenhum estranho ou amigo à vista e a solidão estiver muito difícil de agüentar, ligue para o CVV - Centro de Valorização da Vida. Eles são um bando de caipiras paulistanos com uma disposição imensa para nos ajudar a viver.
Incomodados, não se mudem: mudem o mundo
Eu ficava incomodada com a falta generalizada de educação. Minha irritação era constante com os motoristas mal educados, as pessoas que jogam papel na rua, as que furam fila e as que deixam senhoras em pé no ônibus ou no metrô.
Com o tempo, à medida em que eu fui aprendendo a amar as pessoas, este amor passou a englobar também as pessoas mal educadas.
Por que as pessoas são recriminadas na Suíça por jogar papel no chão? Porque se acredita que elas possam mudar!
Não, não comecei a recriminar ninguém.
Passei a contar para as pessoas o que elas haviam feito. Sem julgamento, sem recriminações.
Abria a janela do carro e dizia:
- Moço, o senhor deixou caiu um papel. Acho que é seu.
Milagre! As pessoas ficavam tão envergonhadas que abriam a porta e recolhiam o lixo!!!
Na rua faço a mesma coisa e tive apenas uma experiência de desagrado, apenas uma garota deu de ombros e me olhou com ar enfezado.
Agora, no metrô, se vejo uma senhora em pé (o que devo dizer que está ficando cada vez mais raro), chego para um rapaz e lhe conto:
- Viu aquela senhora? Ela parece tão cansada!
Nem preciso sugerir que ele se levante. O efeito é imediato.
Para isto, é claro, tem que haver carinho na voz, é necessário acreditar que estas pessoas saibam o que é certo, só estão precisando ser relembradas das lições que, com sorte, elas tiveram um dia.
Desista do carro
Em Taubaté (ao menos no meu tempo) não havia muitas linhas de ônibus e as pessoas se perguntavam: “Prá que? É tão pertinho. Daqui ali é um tirinho de espingarda”
Acostumei-me a atravessar a cidade a pé e fui magérrima a adolescência e juventude inteiras.
A não ser que você goste muito de dirigir e não se incomode com o trânsito, sugiro que você faça do seu bairro a sua cidade (médicos, escolas, comércio) e que só atravesse as fronteiras de metrô ou de ônibus. Para isto, é claro que você tem que aprender a andar a pé.
É, isto mesmo, a pé, sem medo de assaltos, fazendo um bom trabalho cardiovascular e exercitando a arte de observar o caminho.
Eu já fui assaltada três vezes dentro de um carro e nenhuma enquanto andava pelo centro da cidade, pela 25 de março ou pela Paulista.
Seja radical, opte por médicos, escolas, cinemas e lojas que lhe permitam dispensar o carro. Se você gostar do agito, das filas para estacionar no shopping center, da paquera motorizada dos Jardins no final de semana, tudo bem. Mas, se você, como eu, já passou dos 30, experimente radicalizar. Quanto tempo de vida eu tenho para desperdiçar?
Quando eu caminho livre para casa no final do dia, vejo os carros parados na Pamplona e o ar de aborrecimento impresso nos rostos cansados dos motoristas e agradeço aos Céus pela benção de poder trabalhar sem carro.
Quatro anos gastando no trânsito 3 horas por dia foram suficientes para me fazer radical. Foi só fazer as contas: eu gastava dois dias de trabalho por semana no trânsito! É melhor ganhar menos e viver mais. Ou estudar em casa sozinha durante este tempo para me tornar uma profissional melhor.
Hoje faço pelo menos 1,5 h de exercícios por dia e a troca foi muito, muito vantajosa.
É claro que freqüento uma academia no meu bairro. Antes eu chegava estressada em casa depois de fazer ginástica num lugar maravilhoso mas que me exigia 1 hora de trânsito para alcançá-lo.
Ao caminhar, esteja atento ao caminho. Você faz isto quando viaja, por que não incorporar esta atitude para o dia-a-dia? Ah, já sei, porque sua cabeça está concentrada no seu ponto de partida ou no seu ponto de chegada.
Dedique-se ao prazer de caminhar, de olhar ao redor, de observar os rostos das pessoas, de, de vez em quando, entrar em lojinhas que pareçam interessantes, de entrar numa exposição que algum banco esteja promovendo, de fazer tudo aquilo que você não faria se estivesse de carro porque seria impossível estacionar.
Ah, e quando for a um parque, por favor, não vá caminhar pelas alamedas principais durante o tempo recomendado pelo cardiologista. Se você quiser fazer da caminhada um remédio, tudo bem, mas não se furte ao prazer de caminhar sem pressa depois. Não deixe de olhar para a copa das árvores, aproveite para respirar, sinta o cheiro de terra molhada. Embrenhe-se pelas trilhas menos usadas, passe a mão no tronco das árvores e embriague-se da Natureza tão rara nesta grande cidade.
Resgate suas práticas religiosas
Não sei o que você fazia antes de vir para São Paulo, mas é aqui que você vai precisar mais daquelas práticas que lhe dão a dimensão da sua vida dentro de uma vida maior.
Não considero religiosas apenas as orações ou meditações. Tirar o sapato e sentar-se embaixo de um eucalipto no parque Ibirapuera é puro êxtase para mim.
Assistir a um concerto (baratíssimo) no Teatro Municipal, também.
Eu fui a única aluna reprovada num curso de dança de salão, em compensação, danço maravilhosamente bem sozinha (principalmente se ninguém estiver olhando). Os movimentos são precisos, graciosos, seguem a música harmoniosamente? Sei lá! Ponho minha alma para fora quando danço “Adios, nonino” do Piazolla ou as músicas do Vangelis e me encho de alegria com as músicas do Gilberto Gil. Descobri, recentemente, que um tipo de meditação é feito através da dança. Pois é isto que faço enquanto danço sozinha, eu medito, eu me coloco em contato comigo mesma e com o Universo.
Dá prá viver sem este equilíbrio?
Aprecie seus vizinhos
Com a família e os amigos mais chegados morando em outro bairro ou em outra cidade (o que dá na mesma em termos de tempo no trânsito), tome consciência de que seus vizinhos são preciosos.
O respeito à privacidade e à individualidade em São Paulo são coisas que eu considero maravilhosas e um dos motivos por optar por morar aqui.
Mas, as pessoas exageram! Por medo do abuso, daquele vizinho chato que não sai da nossa casa, da vizinha fofoqueira que vai controlar nossas vidas, abolimos todo o contato com os vizinhos, principalmente se morarmos em prédios.
Olha, ninguém mais tem tempo para “não sair da sua casa” ou fofocar. Sossegue, relaxe, você não está sendo julgado. Tem muita gente boa pertinho de você.
Ao invés da falta total de contato, por que não aprender a fixar e a obedecer limites?
Um abraço carinhoso, uma xícara de chá e um ouvido amigo podem fazer toda a diferença naqueles dias em que a vida parece não ter significado.
E eu não estou me referindo apenas a quem recebe o abraço, a xícara de chá e o ouvido. Oferecê-los talvez dê, ainda mais, todo significado à vida.

São Paulo, 19 de abril de 1997

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Patagônia 2

Depois de fazer trilhas em montanhas, praticar rafting em um rio que corta os centenários bosques andinos patagônigos, saltar sobre pedras para nadar nos lagos, cavalgar pelas estepes com uma égua que quase me mata de tanto correr, e fazer tiroleza em 9 plataformas fixadas em pinheiros a 20 m de altura no alto do Cerro Lopez, estava me sentindo uma indômita aventureira quando voltei para o Brasil.

Mal sabia que a volta para o trabalho seria repleta de emoções. No segundo dia, minutos antes da abertura de um evento no escritório, com o lobby lotado de clientes, parceiros, imprensa e funcionários da própria empresa, eu escorreguei. Voei da escada mergulhando de cara no piso com o corpo sobre o meu pulso direito retorcido. Tive direito até a ir de ambulância para o hospital. Quando fechei os olhos pensaram que eu havia desmaiado, mas era puro constrangimento mesmo.

Conclusão: felizmente apenas uma fratura no rádio da qual estou me recuperando. Conto as aventuras para os amigos que vierem me visitar.
Digitar apenas com a mão esquerda cansa MUITO!

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Patagônia 1



Quando eu disse a todos que iria para Bariloche em janeiro, a primeira pergunta que ouvi foi: vai esquiar? Ainda tem neve?
E a primeira pergunta que eu ouvia dos argentinos por aqui era: você já veio no inverno?
Eles têm até mesmo um nome para Bariloche no inverno: Brasiloche.
Escrevo no meu último dia de férias aqui para dizer que esses quinze dias em contato direto com a natureza da Patagônia no verão e sem neve foram os mais restauradores de minha vida.
Está certo que tenho uma almofada elétrica nas costas que doem muito por conta de uma aventura que descreverei mais tarde, mas a alma e o resto do corpo estão maravilhados.
Bariloche fica na Patagônia, uma imensa região do sul da Argentina que vai até a Terra do Fogo. Patagônia me remetia aos pingüins (sem trema, ai, não dá, coitadinhos) até 93 quando eu dei aulas numa obra da CPBO em Pichu Picu Leufu, mas isso é outra história. Custei para descobrir que Bariloche fica na Patagônia. Santa ignorância, Batman!
Comecei a planejar esta viagem com minha irmã que vive na Argentina e com meu cunhado desde o final de novembro.
Escolhemos uma cabaña pela internet que nos parecia (e é) linda e a alugamos: http://www.vientosdesur.com.ar/
No caminho para uma montanha, ela oferece uma linda visão de Bariloche e do lago Nahuel Huapi.
Este lago tem 529 km2 de tamanho. Se eu ouvi bem o que disse um dos guias, para vocês terem uma idéia de quão grandioso e majestoso ele é, cabem 3 Buenos Aires dentro dele!
Há dois tipos de lagos na região: alguns nascem dos glaciares que com o degelo derretem montanha abaixo e outros têm sua origem em nascentes.
Vocês bem podem imaginar a temperatura da água, mas sua cor e transparência é algo indescritível e se deve ao fato de que o fundo é feito de rochas, pedrinhas; é uma região muito rochosa.
Essa água é usada na região e abastece os rios que seguem na direção das cidades que também se servem dela, inclusive para energia elétrica.
Por isso desde o final do século XIX foi criado o Parque Nacional de Nahuel Huapi que é onde Bariloche se localiza.
Antes da chegada dos espanhóis, este pedaço da Patagônia foi habitado por diferentes tribos índígenas, mas a que deixou mais forte presença foram os índios Mapuche, que atravessaram os Andes em busca de refúgio da perseguição dos espanhóis. No Museu da Patagônia vi as bolas e os boleadores que eles já usavam para caçar e lutar naquela época. Esse uso, não sei se só deles, mas de outros indígenas, se reflete (ou refletia) nos pampas brasileiros, entre os gaúchos.
Bom, enfim, cheguei no domingo à noite há quinze dias em vôo direto da TAM (4 horas de viagem só!) e fui recebida por Debinha, Daniel e Daniela (irmã, cunhado e sobrinha). Eles haviam feito o longo caminho desde Buenos Aires em dois dias, repousado um pouco e era quase uma hora da manhã quando me pegaram no aeroporto.
O carinho deles foi parte essencial do restauro, são pessoas muito especiais e amorosas como sabem todos os que os conhecem.
Exploramos juntos a região.
Primeiro a cabana: dois andares, acesso wireless à internet, calefação perfeita, dois quartos, uma sala/cozinha com amplas janelas de vidro com a vista que já mencionei, dois banheiros e um dono que administra tudo com cuidado e dedicação, um engenheiro casado com uma psicóloga que adora conversar sobre os mais variados temas.
O pequeno guia que encontramos em nossa cabana era completo: indicação de como funcionava tudo, do alarme ao telefone, restaurantes, serviços de delivery, passeios mais comuns, telefones de táxis, enfim, uma obra de engenharia realmente.
Na manhã seguinte, e em boa parte das manhãs, acordei cedo, subi para a sala, abri as janelas e meditei, orei, contemplei. Usando as 106 contas do japamala agradeci à Vida por cada uma das bênçãos que ela me proporcionou e muitas vezes tive que dar duas voltas porque só de familiares, amigos e amigas, já tenho uma volta completa.
O objetivo espiritual desta viagem foi se revelando aos poucos.
Fui me reconectando com o planeta Terra que falou comigo em diversas ocasiões:
Quando entrei nas águas do lago Nahuel Huapi, elas me falaram da diminuição dramática das neves a cada ano.
Quando caminhei sozinha no bosque andino, senti as árvores centenárias me transmitindo sua força.
Quando dois cavalos se aproximaram de mim na fazenda, nossa conversa silenciosa pelo olhar era de uma doçura que me fez esquecer a dor nas costas pelos exageros da cavalgada.
As montanhas com sua imponência magestosa me relembraram há quão pouco tempo a espécie humana surgiu, que somos fruto e não donos do planeta e nossa responsabilidade para com as demais espécies nesse momento tão decisivo.

Bem, quando os demais se levantavam, tomávamos café e saíamos para nossas explorações.
No primeiro dia fizemos o circuito pequeno, que, teoricamente, deveria durar meio-dia, mas que nos tomou o dia inteiro porque TUDO era imperdível.
A cabana era bem próxima do centro que se espalha por 4 ou 5 ruas a partir do lago.
Bordeando o Nahuel Huapi, seguimos nos maravilhando com a vista do lago e das montanhas, passando por lindas praias de pedras ou areia bem grossa quase pedrinhas e rochas ladeadas por pinheiros.
Subimos de teleférico o primeiro cerro (montanha) e ali foi possível avistar em 360º. toda a extensão dessa composição magnífica feita de montanhas muito altas, lagos, bosques de pinheiros, ilhas e coroada por um céu azul praticamente sem nuvens.
Fotos, fotos, fotos, Daniel e eu ficamos loucos com nossas câmeras.
Daniela esperava algo mais radical na subida do teleférico (muito devagar, disse ela) e na descida descemos Débora e eu cantarolando trechos da Noviça Rebelde (riam o quanto quiserem, mas foi o que fizemos, aliás, fiz tudo o que quis na viagem mais livre de minha vida).
Mais à frente seguimos e passamos pelo hotel Llao Llao (jau, jau como dizem os argentinos). Este hotel, feito nas primeiras décadas do século passado, tem a localização mais privilegiada que se pode imaginar. Está dentro de um parque, cercado por campos de golf, bosques e lagos.
De lá fomos por um caminho por dentre os bosques e ao passarmos por uma placa “Lago Escondido”, não resistimos e saltamos para conhecê-lo
Depois de um quilômetro por entre cedros e uma grande variedade de pinheiros, chegamos ao lago. Pequeno, cercado de verde, plácido e recolhido como pudorosa dama me fez pensar o que nos fez sair do carro, andar um quilômetro por algo que desconhecíamos e talvez esteja aí uma lição para nós, mulheres, o poder do mistério e das dificuldades a serem vencidas para se conquistar algo.
Voltamos contentes, e retomamos a estrada, mas qual não foi nossa surpresa quando alguns metros à frente outra placa dizia: Lago Escondido – acesso a 50 metros.
Rimos muito.
A fome já apertava a esta hora (mais de 4 da tarde) e vocês sabem os efeitos da fome sobre o meu humor. Paramos na Bahia Lopez, uma pequena praia ao lado de preciosa montanha, mas o restaurante estava fechado.
Seguimos até a Colônia Suíça que hoje é um centro de artesanato com algumas construções históricas (escola e igreja foi o que vimos).
Almoçamos uma truta deliciosa e voltamos à estrada principal.
Numa curva avistamos algumas pessoas paradas no acostamento tomando mate em círculo.
Nos perguntamos quem seriam os loucos a parar para tomar mate na estrada.
Bem, loucos estávamos nós.
Era o ponto panorâmico, tão indescritivelmente lindo que vou deixar para quando vocês vierem aqui ou virem as fotos.
Não digo nada, me recuso a fazê-lo.
Passamos novamente perto da Bahia Lopes e avistamos uma prainha com um canal que une o Lago Nahuel Huapi ao Lago Moreno.
Descemos e foi ali nosso primeiro encontro com as gélidas águas que atravessamos com coragem e impulsionados pelo sol que se fazia forte ainda às 6 da tarde.
Tomamos sol, conversamos, Daniela e eu nos aventuramos do outro lado por uma linda trilha e tiramos, para variar, muitas fotos.
Ir à praia fechou com chave de ouro nosso primeiro dia.