domingo, 7 de dezembro de 2008

Vó Alice e Psiquê


Era uma noite fria de julho e eu seguia pela Avenida Paulista a caminho de casa.
Ao passar diante de um dos inúmeros bancos que se alinham na avenida mais rica da cidade mais rica do estado mais rico do país, ouvi miados que vinham de uma mureta..
Uma gatinha titiritava de frio iluminada pelos holofotes do jardim.
Até hoje eu me indago se alguém a teria colocado ali de propósito, bem ao alcance do coração e das mãos.
Era uma gato comum, um filhote de pêlo listrado cinza e preto.
Não pude resistir e parei para vê-la melhor.
Um casal fazia carinho nela, mas não se interessou por acolhê-la:
- Por que você não leva para a sua casa? - foi a pergunta da moça.
Fiz um cafuné na cabeça da gatinha e ela se enroscou em minha mão.
Na minha casa?
Depois de dois casamentos desfeitos e de alguns namoros pela primeira vez na vida eu morava sozinha. Minha filha fazia o primeiro ano da faculdade de Psicologia em outra cidade e eu só a via nos finais de semana que era quando eu também encontrava meu namorado.
Na minha casa? Não, definitivamente não.
Mas tampouco poderia deixar aquela gatinha ali com o frio que fazia.
Coloquei a gatinha no meu colo e segui caminhando até o meu prédio (não mais na rua mais rica nem no bairro mais rico desta imensa cidade).
Durante todo o trajeto ela se aninhara em meus braços como se sempre tivesse estado ali. Fui fazendo carinho, conversando e caminhando e ela confiou em mim o tempo todo, não tentando escapar, mas ronrronando de contentamento.
E prosseguiu confiando nos dias que se seguiram:
- É só por uma noite.
- É só até você crescer e ficar mais forte.
- É só se você aprender a se comportar.
- Boa noite, minha gata querida, como você está?
- Ah, gatinha querida, que bom que você está aqui! Que linda que você é! Adoro você e não vou abandoná-la.
Quando meu namorado e minha filha a viram também se encantaram por ela.
Por sugestão de minha filha lhe demos o nome de Psiquê. Sua raça, vira-lata brasileira, estava sendo extremamente valorizada nos Estados Unidos onde um exemplar valia doze mil dólares por isso, às vezes nós a chamávamos de 12 K.
Mas o valor dela era imensamente maior do que doze mil dólares para mim.
Naquele mesmo mês eu estava perdendo Vó Alice, minha avozinha querida.
O mal de Alzheimer que a levara aos pouquinhos havia se agravado e poder cuidar um pouco dela nos seus últimos dias foi um dos maiores presentes que a vida me deu. Poder dedicar meu afeto e meu carinho a quem havia sido uma referência de amor generoso e despreendido ensinou-me mais que anos de análise.
Minha vida inteira fôra repleta de mudanças, de laços desfeitos, de amizades perdidas, de pessoas e gatos que se foram ou que morreram. Morria de inveja das pessoas que tinham uma casa de infância. Nem mesmo uma cidade da infância eu tivera! O lugar onde eu morara por mais tempo fôra em algumas cidades do Vale do Paraíba.
Em Volta Redonda, a cidade onde morava minha avó e onde eu nasci, o rio Paraíba faz uma volta, o que me inspirara certa vez:
Rio Paraíba do Sul
Não sou de qualquer lugar,
Sou do Rio,
Sou o rio,
O Rio Paraíba que avança para o mar.
Sou todas as voltas que o rio dá.

Ao longo de minha confusa rota,
Acelero, páro, viro poça,
Se me perguntam:
De onde você é?
Eu me pergunto:
Esta dor, de quando é?
De onde esta busca por um leito?
De quando o gosto por desbarrancar?
De onde esta enchente de lágrimas?
Quando o encontro com o mar?

Ai, a dor de não pertencer!
Ai, o horror de estagnar!
Quando é que pára este medo?
O que fazer para amar?

Ao cuidar de minha avó sem qualquer esperança de que ela me reconhecesse, cuidar apenas, porque eu a amava e queria que sua partida fosse menos dolorosa e mais leve, eu me senti amando incondicionalmente, me entregando como sempre fora meu sonho.
A última vez que eu a vi fisicamente bem havia conversado com ela por um bom tempo na sala quando ela me pediu que a conduzisse ao banheiro.
Antes de fechar a porta ela me perguntou:
- Como é mesmo seu nome?
- Katia
- Ah, eu não me esqueço mais. Tenho uma neta com este nome que eu amo muito.
Sorri com lágrimas nos olhos.
Qual a importância de ser reconhecida quando se tem a certeza de um amor tão profundo?
Meses mais tarde o chamado de meus tios para que fôssemos visitá-la no hospital porque o final de sua vida se aproximava me assustou, mas a viagem de ônibus até Volta Redonda serviu para que eu me acalmasse e me preparasse para o que estava por vir.
Na minha família a morte é encarada de uma forma não muito tradicional. Meu avô já falecido acreditava na reencarnação e hoje a maioria de nós acredita também.
Foi comovente ver como todos os seus filhos, netos e bisnetos a cercaram de carinho, preocupados não só com seu bem-estar físico, mas com a necessidade de tornar aquela passagem um momento de iluminação e crescimento para todos; um adeus dolorido, mas temporário.
No entanto, vovó tivera uma educação religiosa bastante rígida e eu podia sentir que ela estava com medo.
Quando cheguei ao hospital ela não falava mais, balbuciava algo incompreensível com profunda aflição.
Perguntei o que ela costumava falar antes de perder a capacidade de articulação e me disseram que ela não falava mais, apenas rezava.
Pude então entender o “Av, av” que se parecia às vezes com “ae, ae” e, segurando em suas mãos, rezei junto com ela: “Ave Maria, cheia de graça o Senhor é convosco...” como tantas vezes ela havia feito comigo antes de dormir. Ela se acalmou, mas eu ainda não podia compreender este medo tão grande.
Só fui capaz de entendê-la quando dias mais tarde eu mesma tive um sonho muito significativo. Eu estava na praia e o dia ia terminando. A maré estava baixa, o sol já se fora e a era hora de partir, de voltar para casa. Havia um morro para atravessar e eu me vi com muito, muito medo.
Era um caminho tão desconhecido, estava tão escuro! Hesitei muito; eu estava apavorada.
O que iria me acontecer? Que perigos me esperavam naquela mata densa? O que eu iria encontrar do outro lado do morro?
Neste instante duas pessoas se aproximaram de mim e disseram: “nós vamos acompanhá-la, não se preocupe.” Criei coragem e pude então começar minha subida. Acordei nesta manhã muito tranqüila.
Na minha próxima visita já não estranhei ao ler em seus olhos o medo da morte e das possíveis conseqüências, o medo da partida. Eu sentira este medo, eu a entendia.
Depois de algum tempo quando todos saíram e eu fiquei sozinha com ela, toquei seu rosto abatido, fiz longos carinhos em seus cabelos impressionantemente finos e brancos, rezei e me ouvi dizendo:
- Vovó, não tenha medo, a senhora não está sozinha. Há muita gente aqui para ajudar a senhora. Neste instante mesmo, eles estão aqui neste quarto ao seu lado, sabia, vovó querida?
- Eu sei - ela respondeu claramente para minha surpresa.
E assim, a cada visita, meu coração foi se curando e eu fui aprendendo a cuidar, a amar incondicionalmente e a usar o que minha intuição (ou anjos ou espíritos como queiram chamar) me dizia para usar no sentido de ajudar minha amada avózinha.
Com a sua morte um imenso bloco de gelo derreteu-se em meu coração e Psiquê quase morreu afogada nesta grande onda de amor derretido.
Eu precisava muito cuidar de alguém.
Por que eu me apeguei tanto a esta gata? Porque gostar não tem porquês. Eu gostava dela e a cada dia me descobria mais tolerante, mais compassiva, mais preocupada com seu bem-estar.
Deixei de encarar suas travessuras como algo feito contra mim, mas como o instinto animal em ação; perdoei, apreciei, me entreguei a este afeto como raras vezes na vida.
Minha filha à princípio ficou com justificado ciúme. Felizmente ela pôde ver as trasnformações que a gata operava em mim e se entregou ela mesma ao afeto pela gata, algo que nela é completamente natural.
Enquanto morei sozinha compartilhei com Psiquê uma rotina matinal que só foi interrompida quando me casei com meu namorado.
Eu acordava e ia pegar o jornal na porta do apartamento. A partir daí ela me seguia.
Ela se lambia inteira enquanto eu me banhava e prosseguia em sua toalete enquanto eu me vestia.
Um pouco de ração no prato dela e um bocado de cereal no meu potinho.
Ela comia na área de serviço e depois ficava aos meus pés.
Com o tempo descobri que ela adorava mamão papaya. Eu deixava as sementes e a casca raspada para ela que, a partir daí, deixou em paz as minhas plantas. O mamão supria as necessidades dela de comer vegetais.
Eu voltava para o quarto e para o banheiro e lá vinha Psiquê em meu encalço.
Ela passava o dia inteiro sozinha e quando eu voltava à noite a primeira coisa que fazia era cuidar da sua comida, da sua água e da sua caixa de areia.
- Rrrrrr, ela ronronava satisfeita.
Se por acaso eu chegasse e fosse falar ao telefone, ela me rodiava incansável e aborrecida até que eu fosse cuidar dela.
- Ela te educou direitinho - dizia meu namorado.
Um pouco de colo, muito carinho e, principalmente, minha voz conversando com ela faziam parte da sua “ração diária”, tão essencial à vida quanto os cuidados físicos.
Aprendi a cuidar, a me preocupar, a levar em conta as necessidades do outro antes de pensar em mim.
Eu estava pronta para a maternidade!
Levara quarenta anos para me preparar. Neste meio tempo havia sido mãe, esposa, amiga, dona de outros gatos, mas Psiquê entrou na minha vida no momento em que eu descobria que não precisava temer o afeto, o apego, a perda.
Esta convivência amorosa calou diálogos internos que me atormentaram por toda a vida: devo amar esta pessoa? Por que? Estou sendo amada na mesma proporção? Mas, principalmente: será que eu vou perdê-la?
Aprendi a amar simplesmente: minha filha, meu marido, meus pais, minha família universal.

“Se ali se vai Alice,
Aqui na verdade fica Alice,
Nos troncos, galhos e folhas
De suas generosas raízes”

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Manhã de sábado


Saio da lavanderia e sigo andando pela Cincinato Braga, contornando o quarteirão pela Brigadeiro até chegar na Fausto Ferraz onde moro.
Sou tocada, atingida em cheio pela beleza e singularidade das coisas comuns, aquelas com as quais a gente se acostuma e nem percebe mais.
Passa por mim e entra na igreja uma senhora que reconheço: maquilagem exagerada, os cabelos presos numa profusão de grampos, seria uma personagem quase cômica não fosse o fervor que coloca em cada gesto ao coordenar a participação da comunidade nas missas.
No domingo de Páscoa do ano passado, sem qualquer aviso, ela me escolheu para levar o cálice com a hóstia até o altar para que fosse consagrada. Eu???? Freqüento a igreja apenas algumas vezes por ano! Estou mais para pecadora contumaz que para católica praticante! Caminhei pelo templo com a mesma emoção da minha primeira comunhão. Eu era criança, feliz e inocente novamente. As lágrimas rolaram sem que eu tentasse detê-las.
Agora, sábado de manhã, ela passa por mim compenetrada. Deve haver ensaio do coro.
Mais alguns passos e o vendedor de rosas as oferece para mim com o sorriso habitual sabendo que vai receber minha negativa habitual, mas mesmo assim mantendo sua alegria irresistível.
Duas senhoras interessam-se pela banquinha que vende chinelos, pantufas, mas a vendedora foi ao banheiro, informa o vendedor vizinho que tenta entretê-las enquando sua amiga não vem para que ela não perca a venda.
Passo pelo estacionamento do Extra. Há anos freqüento este supermercado. No começo, no tempo em que eu era muito boba, achava-o feio, sem graça, sem glamour.
Hoje comovo-me com as pessoas idosas e simples que o freqüentam.
À noite uma senhora costuma sentar-se nas cadeiras em frente aos caixas e, amparada na enorme bolsa que carrega, dorme. Precisei ver estas cenas algumas vezes para compreender que ela não está aguardando ninguém, que trata-se de uma pessoa sem teto que conta com a compreensão dos funcionários do supermercado para um temporário repouso.
Já tive encontros muito especiais com pessoas idosas com quem troquei palavras sábias, atitudes carinhosas e que iluminaram minha vida por alguns minutos .
Mas hoje não é nada especial que me comove.
É sim o movimento, os gestos comuns, as pessoas ativas me permitindo observar relances de suas vidas.
É a simples visão de alguém saindo do supermercado com uma sacola de compras que me aquece o coração.
Essa pessoa leva para casa o que comprou, preparará talvez uma refeição. O casal ali na frente divide o peso das sacolas entre si novamente com um olhar de compreensão.
Segundo John Lennon, “a vida é o que lhe acontece enquanto você faz planos” e eu estou vendo a vida se desenrolar na minha frente.
Engraçado como a gente não tem saudade de grandes fatos da vida, dos grandes acontecimentos.
A saudade maior (pelo menos no meu caso) é das pequenas coisas. Eu sei que um dia terei saudade das muitas vezes em que caminhei por este quarteirão.
Como na infância, lembra?
Lembra das nuvens formando desenhos no céu enquanto você “bestava” no quintal ? Lembra do facho de luz entrando pela janela e iluminando partículas de poeira em suspensão? Lembra de ficar deitado observando os padrões do azulejo ou do nó da madeira nos móveis? E de ficar lendo na cama comendo goiaba enquanto lia Monteiro Lobato?
Aposto que você se recorda com carinho da caminhada até a escola, daqueles vizinhos “comuns” de quem hoje você se lembra com ternura, do cheiro de arroz sendo refogado, do cheiro de caderno recém-encapado no início do ano letivo. E isso persiste pela vida adulta afora, geralmente a gente só se dá conta de quantas pequenas e importantes coisas formam a riqueza de nossa vida depois que não as temos mais.
Não, não quero que a vida seja congelada, que a gente se apegue a tudo, que a gente rejeite mudanças por valorizar o estado atual.
Mas hoje proponho um olhar diferente, mais terno, mais compassivo sobre cada um dos fios que formam o colorido tecido de nossas vidas.
Que trama linda a minha! E vocês fazem parte dela!
Obrigada,

Escrito em 2003 (eu acho)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Rede do Bem

As lembranças do dia me invadem e me aquecem nesta noite gelada:
Abraços, muitos e muitos abraços de pessoas queridas e admiradas, uma reunião por telefone com pesquisadores idealistas, felizes encontros com colegas no escritório, o sucesso no trabalho voluntário de minha filha e sua amiga, boas novas sobre o andamento da construção do centro de educação ambiental do qual faço parte, conexões com uma fundação que se dedica a apoiar menores na zona rural, enfim um dia de contato com pessoas que se empenham na construção de um mundo melhor e que estão se unindo em parcerias onde todos ganham e o efeito é exponencialmente benéfico para a vida das comunidades.
No meio disto tudo uma conversa com pessoas do chamado “mundo real”, bem-sucedidos e competentes homens de negócios agarrados ao modelo tradicional que preconiza que “os recursos são limitados e as necessidades, ilimitadas” e que, portanto, baseia-se na competição e na exclusão dos mais fracos.
Pela primeira vez na vida não tentei convencê-los ou fiquei revoltada.
Olhei-os com legítima e amorosa compaixão.
Compreendi o que os movia, compreendi porque eles colocavam tanto de sua energia em ganhar dinheiro desta forma: o medo, a falta de confiança.
Percebi que eu não poderia atingi-los com minhas palavras, modificar suas ações ou visões enquanto eles fossem prisioneiros deste medo.
De nada adiantaria dizer-lhes que havia uma fonte de alegria jorrando ao seu lado para saciar sua sede de uma forma que o dinheiro jamais faria.
Eu mesma já lutei desesperadamente para obter segurança financeira, eu mesma me pego muitas vezes apavorada e ligando-me a energias destrutivas.
Mas hoje, especialmente hoje, eu me reconheço riquíssima, milionária, segura, amparada, confiante.
Hoje eu me dei conta da quantidade enorme, avassaladora de exemplos de pessoas boas e de ações boas que me rodeiam.
Eu lido cotidianamente com o Bem.
Ele me cerca, me inunda, me sustenta.
À noite, caminhava pelas ruas desertas e fui assaltada, mas não era um ladrão.
Assaltou-me sim uma vontade imensa de conclamar as pessoas para caminhar novamente pelas ruas.
Quem ganha dinheiro com o medo que nos impede de ocupar as ruas?
Fabricantes de automóveis, seguradoras, empresas de segurança, academias onde “se paga para andar sem sair do lugar” como definiu um amigo meu, etc., etc.
Expandindo isso para outras áreas da vida, quão dominados somos pelo medo?
O medo da baixa qualidade da educação pública me fez pagar uma escola particular para minha filha na tentativa de torná-la mais competitiva quando ela chegasse ao mercado de trabalho. O medo da baixa qualidade dos serviços públicos de saúde me fizeram pagar planos de saúde nos últimos 30 anos. O medo da qualidade ruim da programação da TV aberta me fez assinar uma TV a cabo. O medo da poluição me fez comprar um sítio. O medo da solidão nos faz enlouquecer na busca pela beleza e perfeição físicas. E por aí vai, cada um de nós pagando para obter aquilo que teríamos muito mais facilmente se nos uníssemos.
É muito simples dizer que há uma grande articulação econômica que faz com que a gente acredite estarmos sós se tentarmos mudar o mundo.
Até acho que a elite econômica se aproveita disso.
Mas não posso ver a própria elite com seus carros blindados, seguranças e total afastamento da realidade dos menos favorecidos senão com compaixão.
Não há seres tão cruéis assim! Há, isto sim, em todas as camadas sociais, vítimas da ignorância que nos faz medrosos.
Medrosos agimos de forma egoísta.
Medrosos agredimos e competimos.
E isto inclui todos nós quando estamos desequilibrados e também empresários gananciosos, políticos corruptos, bandidos, traficantes e viciados, colegas de trabalho ambiciosos e desleais, pais e mães em conflito com seus filhos, adolescentes revoltados.
Ignoramos que este é o caminho mais difícil para se obter equilíbrio e sabedoria.
Ignoramos que o Bem atua no momento em que é acionado, no momento em que nos conectamos e nos entregamos a ele. E o que nos parece serem milagres são, na verdade, conseqüências naturais.
Nós O vemos agindo em nossas famílias, nos gestos de carinho e gentileza entre vizinhos e amigos, e enxergamos nessas ações exceções à regra.
Mas o Bem é a regra! Ele é a única realidade.
Todo o resto são criações do nosso medo, da nossa falta de confiança.
O que chamam de realidade não passa de uma imensa e coletiva ilusão.
O mundo atual está construído em cima desta ilusão e ele está ruindo.
Sistemas econômicos e políticos, estruturas da sociedade são uma construção feita com base em falsas premissas que não passam de reflexos das premissas que dominaram nossos corações encobrindo o que é real.
Quando nossos corações se libertarem do medo o mundo também mudará.
Eu poderia passar a madrugada inteira me lembrando de pessoas que me ajudaram, de exemplos de obras amorosas, de grupos sociais, religiosos, educacionais, científicos, de gestos de honestidade, de provas do Bem que nos cerca. Nos últimos tempos, depois da extração do câncer, busquei uma vida mais saudável em todos os sentidos e o resultado foi que eu fui colocada numa trilha onde abundam estes exemplos.
Mas não preciso.
Seriam apenas repetitivos exemplos do que é o normal. Não preciso me dar conta da respiração e da digestão acontecendo em meu corpo, da existência da atmosfera do planeta impedindo que a gente congele ou derreta, da força da gravidade mantendo meus pés no chão.
São coisas normais, é assim simplesmente.
Alegro-me não pela existência do Bem, mas por reconhecê-lo finalmente em toda a parte.
Nunca mais me referirei a alguém como “uma pessoa boa” ou “do bem”.
Ao invés disso direi é “alguém que já descobriu que é uma pessoa boa”.
Que possamos contribuir para que os que nos cercam façam esta descoberta.
Que consigamos visualizar o Bem mesmo onde o Medo nos diga que há uma ameaça.
Que nos libertemos do Medo.
Amém.
Maio de 2004

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Mulher de malandro

Toda mulher é mulher de malandro.
Sim, por favor. É este desejo secreto que todo homem bonzinho deveria conhecer.
As mulheres adoram os malandros. O malandro repara na roupa, traz flores, poemas ou convites para admirar o luar. Qual dos dois as mulheres preferem?
Casamo-nos com os bonzinhos (aliás, eles são do tipo de propor casamento), mas nos apaixonamos pelos malandros.
O bonzinho é correto, não mente, não trai, trabalha demais e descansa de pijama e chinelo na frente da TV. É como comparar um gato dos telhados com um cão domesticado!
Cruel?
Crueldade é se enfeitar esperando um convite, um elogio, uma cantada e receber de volta o suspiro desanimado de alguém diante de uma obrigação.
Não há uma regra, mas os bonzinhos geralmente são engenheiros, administradores, analistas de sistemas, militares, funcionários públicos, executivos da Produção, do Jurídico ou de qualquer área onde tenham que exercer continuamente o domínio da razão.
Os malandros?
Estes, quando trabalham, são publicitários, artistas, executivos de Marketing ou Vendas ou donos de empreendimentos incomuns, homens que vivem de expressar emoções.
Emoções verdadeiras? Nem sempre.
Assim como o bonzinho aprende cedo a se comportar, o malandro lida com a imagem, vive da imagem, apega-se a ela numa escravidão quase tão ferrenha quanto a do bonzinho.
É assim que ele fala mais do que sente, engana, ilude, cria e desfaz fantasias com a facilidade de um mago do amor.
É como se ele tivesse que reafirmar reiteradamente seu amor para torná-lo real. E ele ama? É claro que sim. Toda mulher que já se apaixonou por um malandro duvidou um dia disto, para concluir que, real ou verdadeiro, o amor dele é tão inebriante que vale a pena ser vivido. Flores sendo enviadas de uma cidade para a outra, recados incandescentes na secretária eletrônica, elogios que a fazem se sentir a mulher mais especial do mundo. O que mais uma mulher pode querer?
Um amor verdadeiro?
Por que não? Já que é muito difícil ensinar o malandro a amar verdadeiramente, fico me perguntando porque os homens bonzinhos não aprendem com os malandros a expressar suas emoções.
Tive um vizinho (malandro) que deveria dar aulas para todos os maridos do prédio, pois sabia como agradar à mulher amada. Surpresas como bilhetes nas calcinhas quando ele viajava ou finais de semana especiais para comemorar datas das quais ela nem se lembrava mais eram uma “rotina” na vida desta afortunada mulher.
Enquanto isto nós, suas vizinhas, ficávamos felizes quando nossos maridos se lembravam de passar pela locadora e encomendavam uma pizza para o sábado à noite.
Ciente de sua superioridade moral, o homem bonzinho só é abalado em seu torpor quando a mulher o troca por um malandro (eles são irresistíveis).
A dor profunda é manifestada, agora sim, na proporção inversa à falta de demonstração do amor.
Perdem os dois. A mulher vai descobrir rapidamente que, com raras exceções, aquela fumaça toda do malandro não escondia nenhum fogo mais duradouro.
Acostumada com a segurança e lealdade do amor canino, ou ela adquire fôlego de gata ou vai correndo para os braços do primeiro homem bonzinho que lhe aparecer pela frente.
Bonzinhos de todo o mundo, aprendei com os malandros!
Saiam do comodismo e esforcem-se para agradar sua amada.
Percam a timidez, façam carinho em público, tentem escrever poemas, façam loucuras, sonhem em dupla com o impossível, reservem tempo para o amor.
Vocês valem muito a pena, mas, desconheço produto bom que sobreviva sem propaganda.