As lembranças do dia me invadem e me aquecem nesta noite gelada:
Abraços, muitos e muitos abraços de pessoas queridas e admiradas, uma reunião por telefone com pesquisadores idealistas, felizes encontros com colegas no escritório, o sucesso no trabalho voluntário de minha filha e sua amiga, boas novas sobre o andamento da construção do centro de educação ambiental do qual faço parte, conexões com uma fundação que se dedica a apoiar menores na zona rural, enfim um dia de contato com pessoas que se empenham na construção de um mundo melhor e que estão se unindo em parcerias onde todos ganham e o efeito é exponencialmente benéfico para a vida das comunidades.
No meio disto tudo uma conversa com pessoas do chamado “mundo real”, bem-sucedidos e competentes homens de negócios agarrados ao modelo tradicional que preconiza que “os recursos são limitados e as necessidades, ilimitadas” e que, portanto, baseia-se na competição e na exclusão dos mais fracos.
Pela primeira vez na vida não tentei convencê-los ou fiquei revoltada.
Olhei-os com legítima e amorosa compaixão.
Compreendi o que os movia, compreendi porque eles colocavam tanto de sua energia em ganhar dinheiro desta forma: o medo, a falta de confiança.
Percebi que eu não poderia atingi-los com minhas palavras, modificar suas ações ou visões enquanto eles fossem prisioneiros deste medo.
De nada adiantaria dizer-lhes que havia uma fonte de alegria jorrando ao seu lado para saciar sua sede de uma forma que o dinheiro jamais faria.
Eu mesma já lutei desesperadamente para obter segurança financeira, eu mesma me pego muitas vezes apavorada e ligando-me a energias destrutivas.
Mas hoje, especialmente hoje, eu me reconheço riquíssima, milionária, segura, amparada, confiante.
Hoje eu me dei conta da quantidade enorme, avassaladora de exemplos de pessoas boas e de ações boas que me rodeiam.
Eu lido cotidianamente com o Bem.
Ele me cerca, me inunda, me sustenta.
À noite, caminhava pelas ruas desertas e fui assaltada, mas não era um ladrão.
Assaltou-me sim uma vontade imensa de conclamar as pessoas para caminhar novamente pelas ruas.
Quem ganha dinheiro com o medo que nos impede de ocupar as ruas?
Fabricantes de automóveis, seguradoras, empresas de segurança, academias onde “se paga para andar sem sair do lugar” como definiu um amigo meu, etc., etc.
Expandindo isso para outras áreas da vida, quão dominados somos pelo medo?
O medo da baixa qualidade da educação pública me fez pagar uma escola particular para minha filha na tentativa de torná-la mais competitiva quando ela chegasse ao mercado de trabalho. O medo da baixa qualidade dos serviços públicos de saúde me fizeram pagar planos de saúde nos últimos 30 anos. O medo da qualidade ruim da programação da TV aberta me fez assinar uma TV a cabo. O medo da poluição me fez comprar um sítio. O medo da solidão nos faz enlouquecer na busca pela beleza e perfeição físicas. E por aí vai, cada um de nós pagando para obter aquilo que teríamos muito mais facilmente se nos uníssemos.
É muito simples dizer que há uma grande articulação econômica que faz com que a gente acredite estarmos sós se tentarmos mudar o mundo.
Até acho que a elite econômica se aproveita disso.
Mas não posso ver a própria elite com seus carros blindados, seguranças e total afastamento da realidade dos menos favorecidos senão com compaixão.
Não há seres tão cruéis assim! Há, isto sim, em todas as camadas sociais, vítimas da ignorância que nos faz medrosos.
Medrosos agimos de forma egoísta.
Medrosos agredimos e competimos.
E isto inclui todos nós quando estamos desequilibrados e também empresários gananciosos, políticos corruptos, bandidos, traficantes e viciados, colegas de trabalho ambiciosos e desleais, pais e mães em conflito com seus filhos, adolescentes revoltados.
Ignoramos que este é o caminho mais difícil para se obter equilíbrio e sabedoria.
Ignoramos que o Bem atua no momento em que é acionado, no momento em que nos conectamos e nos entregamos a ele. E o que nos parece serem milagres são, na verdade, conseqüências naturais.
Nós O vemos agindo em nossas famílias, nos gestos de carinho e gentileza entre vizinhos e amigos, e enxergamos nessas ações exceções à regra.
Mas o Bem é a regra! Ele é a única realidade.
Todo o resto são criações do nosso medo, da nossa falta de confiança.
O que chamam de realidade não passa de uma imensa e coletiva ilusão.
O mundo atual está construído em cima desta ilusão e ele está ruindo.
Sistemas econômicos e políticos, estruturas da sociedade são uma construção feita com base em falsas premissas que não passam de reflexos das premissas que dominaram nossos corações encobrindo o que é real.
Quando nossos corações se libertarem do medo o mundo também mudará.
Eu poderia passar a madrugada inteira me lembrando de pessoas que me ajudaram, de exemplos de obras amorosas, de grupos sociais, religiosos, educacionais, científicos, de gestos de honestidade, de provas do Bem que nos cerca. Nos últimos tempos, depois da extração do câncer, busquei uma vida mais saudável em todos os sentidos e o resultado foi que eu fui colocada numa trilha onde abundam estes exemplos.
Mas não preciso.
Seriam apenas repetitivos exemplos do que é o normal. Não preciso me dar conta da respiração e da digestão acontecendo em meu corpo, da existência da atmosfera do planeta impedindo que a gente congele ou derreta, da força da gravidade mantendo meus pés no chão.
São coisas normais, é assim simplesmente.
Alegro-me não pela existência do Bem, mas por reconhecê-lo finalmente em toda a parte.
Nunca mais me referirei a alguém como “uma pessoa boa” ou “do bem”.
Ao invés disso direi é “alguém que já descobriu que é uma pessoa boa”.
Que possamos contribuir para que os que nos cercam façam esta descoberta.
Que consigamos visualizar o Bem mesmo onde o Medo nos diga que há uma ameaça.
Que nos libertemos do Medo.
Amém.
Maio de 2004
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