segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Patagônia 2

Depois de fazer trilhas em montanhas, praticar rafting em um rio que corta os centenários bosques andinos patagônigos, saltar sobre pedras para nadar nos lagos, cavalgar pelas estepes com uma égua que quase me mata de tanto correr, e fazer tiroleza em 9 plataformas fixadas em pinheiros a 20 m de altura no alto do Cerro Lopez, estava me sentindo uma indômita aventureira quando voltei para o Brasil.

Mal sabia que a volta para o trabalho seria repleta de emoções. No segundo dia, minutos antes da abertura de um evento no escritório, com o lobby lotado de clientes, parceiros, imprensa e funcionários da própria empresa, eu escorreguei. Voei da escada mergulhando de cara no piso com o corpo sobre o meu pulso direito retorcido. Tive direito até a ir de ambulância para o hospital. Quando fechei os olhos pensaram que eu havia desmaiado, mas era puro constrangimento mesmo.

Conclusão: felizmente apenas uma fratura no rádio da qual estou me recuperando. Conto as aventuras para os amigos que vierem me visitar.
Digitar apenas com a mão esquerda cansa MUITO!

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Patagônia 1



Quando eu disse a todos que iria para Bariloche em janeiro, a primeira pergunta que ouvi foi: vai esquiar? Ainda tem neve?
E a primeira pergunta que eu ouvia dos argentinos por aqui era: você já veio no inverno?
Eles têm até mesmo um nome para Bariloche no inverno: Brasiloche.
Escrevo no meu último dia de férias aqui para dizer que esses quinze dias em contato direto com a natureza da Patagônia no verão e sem neve foram os mais restauradores de minha vida.
Está certo que tenho uma almofada elétrica nas costas que doem muito por conta de uma aventura que descreverei mais tarde, mas a alma e o resto do corpo estão maravilhados.
Bariloche fica na Patagônia, uma imensa região do sul da Argentina que vai até a Terra do Fogo. Patagônia me remetia aos pingüins (sem trema, ai, não dá, coitadinhos) até 93 quando eu dei aulas numa obra da CPBO em Pichu Picu Leufu, mas isso é outra história. Custei para descobrir que Bariloche fica na Patagônia. Santa ignorância, Batman!
Comecei a planejar esta viagem com minha irmã que vive na Argentina e com meu cunhado desde o final de novembro.
Escolhemos uma cabaña pela internet que nos parecia (e é) linda e a alugamos: http://www.vientosdesur.com.ar/
No caminho para uma montanha, ela oferece uma linda visão de Bariloche e do lago Nahuel Huapi.
Este lago tem 529 km2 de tamanho. Se eu ouvi bem o que disse um dos guias, para vocês terem uma idéia de quão grandioso e majestoso ele é, cabem 3 Buenos Aires dentro dele!
Há dois tipos de lagos na região: alguns nascem dos glaciares que com o degelo derretem montanha abaixo e outros têm sua origem em nascentes.
Vocês bem podem imaginar a temperatura da água, mas sua cor e transparência é algo indescritível e se deve ao fato de que o fundo é feito de rochas, pedrinhas; é uma região muito rochosa.
Essa água é usada na região e abastece os rios que seguem na direção das cidades que também se servem dela, inclusive para energia elétrica.
Por isso desde o final do século XIX foi criado o Parque Nacional de Nahuel Huapi que é onde Bariloche se localiza.
Antes da chegada dos espanhóis, este pedaço da Patagônia foi habitado por diferentes tribos índígenas, mas a que deixou mais forte presença foram os índios Mapuche, que atravessaram os Andes em busca de refúgio da perseguição dos espanhóis. No Museu da Patagônia vi as bolas e os boleadores que eles já usavam para caçar e lutar naquela época. Esse uso, não sei se só deles, mas de outros indígenas, se reflete (ou refletia) nos pampas brasileiros, entre os gaúchos.
Bom, enfim, cheguei no domingo à noite há quinze dias em vôo direto da TAM (4 horas de viagem só!) e fui recebida por Debinha, Daniel e Daniela (irmã, cunhado e sobrinha). Eles haviam feito o longo caminho desde Buenos Aires em dois dias, repousado um pouco e era quase uma hora da manhã quando me pegaram no aeroporto.
O carinho deles foi parte essencial do restauro, são pessoas muito especiais e amorosas como sabem todos os que os conhecem.
Exploramos juntos a região.
Primeiro a cabana: dois andares, acesso wireless à internet, calefação perfeita, dois quartos, uma sala/cozinha com amplas janelas de vidro com a vista que já mencionei, dois banheiros e um dono que administra tudo com cuidado e dedicação, um engenheiro casado com uma psicóloga que adora conversar sobre os mais variados temas.
O pequeno guia que encontramos em nossa cabana era completo: indicação de como funcionava tudo, do alarme ao telefone, restaurantes, serviços de delivery, passeios mais comuns, telefones de táxis, enfim, uma obra de engenharia realmente.
Na manhã seguinte, e em boa parte das manhãs, acordei cedo, subi para a sala, abri as janelas e meditei, orei, contemplei. Usando as 106 contas do japamala agradeci à Vida por cada uma das bênçãos que ela me proporcionou e muitas vezes tive que dar duas voltas porque só de familiares, amigos e amigas, já tenho uma volta completa.
O objetivo espiritual desta viagem foi se revelando aos poucos.
Fui me reconectando com o planeta Terra que falou comigo em diversas ocasiões:
Quando entrei nas águas do lago Nahuel Huapi, elas me falaram da diminuição dramática das neves a cada ano.
Quando caminhei sozinha no bosque andino, senti as árvores centenárias me transmitindo sua força.
Quando dois cavalos se aproximaram de mim na fazenda, nossa conversa silenciosa pelo olhar era de uma doçura que me fez esquecer a dor nas costas pelos exageros da cavalgada.
As montanhas com sua imponência magestosa me relembraram há quão pouco tempo a espécie humana surgiu, que somos fruto e não donos do planeta e nossa responsabilidade para com as demais espécies nesse momento tão decisivo.

Bem, quando os demais se levantavam, tomávamos café e saíamos para nossas explorações.
No primeiro dia fizemos o circuito pequeno, que, teoricamente, deveria durar meio-dia, mas que nos tomou o dia inteiro porque TUDO era imperdível.
A cabana era bem próxima do centro que se espalha por 4 ou 5 ruas a partir do lago.
Bordeando o Nahuel Huapi, seguimos nos maravilhando com a vista do lago e das montanhas, passando por lindas praias de pedras ou areia bem grossa quase pedrinhas e rochas ladeadas por pinheiros.
Subimos de teleférico o primeiro cerro (montanha) e ali foi possível avistar em 360º. toda a extensão dessa composição magnífica feita de montanhas muito altas, lagos, bosques de pinheiros, ilhas e coroada por um céu azul praticamente sem nuvens.
Fotos, fotos, fotos, Daniel e eu ficamos loucos com nossas câmeras.
Daniela esperava algo mais radical na subida do teleférico (muito devagar, disse ela) e na descida descemos Débora e eu cantarolando trechos da Noviça Rebelde (riam o quanto quiserem, mas foi o que fizemos, aliás, fiz tudo o que quis na viagem mais livre de minha vida).
Mais à frente seguimos e passamos pelo hotel Llao Llao (jau, jau como dizem os argentinos). Este hotel, feito nas primeiras décadas do século passado, tem a localização mais privilegiada que se pode imaginar. Está dentro de um parque, cercado por campos de golf, bosques e lagos.
De lá fomos por um caminho por dentre os bosques e ao passarmos por uma placa “Lago Escondido”, não resistimos e saltamos para conhecê-lo
Depois de um quilômetro por entre cedros e uma grande variedade de pinheiros, chegamos ao lago. Pequeno, cercado de verde, plácido e recolhido como pudorosa dama me fez pensar o que nos fez sair do carro, andar um quilômetro por algo que desconhecíamos e talvez esteja aí uma lição para nós, mulheres, o poder do mistério e das dificuldades a serem vencidas para se conquistar algo.
Voltamos contentes, e retomamos a estrada, mas qual não foi nossa surpresa quando alguns metros à frente outra placa dizia: Lago Escondido – acesso a 50 metros.
Rimos muito.
A fome já apertava a esta hora (mais de 4 da tarde) e vocês sabem os efeitos da fome sobre o meu humor. Paramos na Bahia Lopez, uma pequena praia ao lado de preciosa montanha, mas o restaurante estava fechado.
Seguimos até a Colônia Suíça que hoje é um centro de artesanato com algumas construções históricas (escola e igreja foi o que vimos).
Almoçamos uma truta deliciosa e voltamos à estrada principal.
Numa curva avistamos algumas pessoas paradas no acostamento tomando mate em círculo.
Nos perguntamos quem seriam os loucos a parar para tomar mate na estrada.
Bem, loucos estávamos nós.
Era o ponto panorâmico, tão indescritivelmente lindo que vou deixar para quando vocês vierem aqui ou virem as fotos.
Não digo nada, me recuso a fazê-lo.
Passamos novamente perto da Bahia Lopes e avistamos uma prainha com um canal que une o Lago Nahuel Huapi ao Lago Moreno.
Descemos e foi ali nosso primeiro encontro com as gélidas águas que atravessamos com coragem e impulsionados pelo sol que se fazia forte ainda às 6 da tarde.
Tomamos sol, conversamos, Daniela e eu nos aventuramos do outro lado por uma linda trilha e tiramos, para variar, muitas fotos.
Ir à praia fechou com chave de ouro nosso primeiro dia.