
Era uma noite fria de julho e eu seguia pela Avenida Paulista a caminho de casa.
Ao passar diante de um dos inúmeros bancos que se alinham na avenida mais rica da cidade mais rica do estado mais rico do país, ouvi miados que vinham de uma mureta..
Uma gatinha titiritava de frio iluminada pelos holofotes do jardim.
Até hoje eu me indago se alguém a teria colocado ali de propósito, bem ao alcance do coração e das mãos.
Era uma gato comum, um filhote de pêlo listrado cinza e preto.
Não pude resistir e parei para vê-la melhor.
Um casal fazia carinho nela, mas não se interessou por acolhê-la:
- Por que você não leva para a sua casa? - foi a pergunta da moça.
Fiz um cafuné na cabeça da gatinha e ela se enroscou em minha mão.
Na minha casa?
Depois de dois casamentos desfeitos e de alguns namoros pela primeira vez na vida eu morava sozinha. Minha filha fazia o primeiro ano da faculdade de Psicologia em outra cidade e eu só a via nos finais de semana que era quando eu também encontrava meu namorado.
Na minha casa? Não, definitivamente não.
Mas tampouco poderia deixar aquela gatinha ali com o frio que fazia.
Coloquei a gatinha no meu colo e segui caminhando até o meu prédio (não mais na rua mais rica nem no bairro mais rico desta imensa cidade).
Durante todo o trajeto ela se aninhara em meus braços como se sempre tivesse estado ali. Fui fazendo carinho, conversando e caminhando e ela confiou em mim o tempo todo, não tentando escapar, mas ronrronando de contentamento.
E prosseguiu confiando nos dias que se seguiram:
- É só por uma noite.
- É só até você crescer e ficar mais forte.
- É só se você aprender a se comportar.
- Boa noite, minha gata querida, como você está?
- Ah, gatinha querida, que bom que você está aqui! Que linda que você é! Adoro você e não vou abandoná-la.
Quando meu namorado e minha filha a viram também se encantaram por ela.
Por sugestão de minha filha lhe demos o nome de Psiquê. Sua raça, vira-lata brasileira, estava sendo extremamente valorizada nos Estados Unidos onde um exemplar valia doze mil dólares por isso, às vezes nós a chamávamos de 12 K.
Mas o valor dela era imensamente maior do que doze mil dólares para mim.
Naquele mesmo mês eu estava perdendo Vó Alice, minha avozinha querida.
O mal de Alzheimer que a levara aos pouquinhos havia se agravado e poder cuidar um pouco dela nos seus últimos dias foi um dos maiores presentes que a vida me deu. Poder dedicar meu afeto e meu carinho a quem havia sido uma referência de amor generoso e despreendido ensinou-me mais que anos de análise.
Minha vida inteira fôra repleta de mudanças, de laços desfeitos, de amizades perdidas, de pessoas e gatos que se foram ou que morreram. Morria de inveja das pessoas que tinham uma casa de infância. Nem mesmo uma cidade da infância eu tivera! O lugar onde eu morara por mais tempo fôra em algumas cidades do Vale do Paraíba.
Em Volta Redonda, a cidade onde morava minha avó e onde eu nasci, o rio Paraíba faz uma volta, o que me inspirara certa vez:
Rio Paraíba do Sul
Não sou de qualquer lugar,
Sou do Rio,
Sou o rio,
O Rio Paraíba que avança para o mar.
Sou todas as voltas que o rio dá.
Ao longo de minha confusa rota,
Acelero, páro, viro poça,
Se me perguntam:
De onde você é?
Eu me pergunto:
Esta dor, de quando é?
De onde esta busca por um leito?
De quando o gosto por desbarrancar?
De onde esta enchente de lágrimas?
Quando o encontro com o mar?
Ai, a dor de não pertencer!
Ai, o horror de estagnar!
Quando é que pára este medo?
O que fazer para amar?
Ao cuidar de minha avó sem qualquer esperança de que ela me reconhecesse, cuidar apenas, porque eu a amava e queria que sua partida fosse menos dolorosa e mais leve, eu me senti amando incondicionalmente, me entregando como sempre fora meu sonho.
A última vez que eu a vi fisicamente bem havia conversado com ela por um bom tempo na sala quando ela me pediu que a conduzisse ao banheiro.
Antes de fechar a porta ela me perguntou:
- Como é mesmo seu nome?
- Katia
- Ah, eu não me esqueço mais. Tenho uma neta com este nome que eu amo muito.
Sorri com lágrimas nos olhos.
Qual a importância de ser reconhecida quando se tem a certeza de um amor tão profundo?
Meses mais tarde o chamado de meus tios para que fôssemos visitá-la no hospital porque o final de sua vida se aproximava me assustou, mas a viagem de ônibus até Volta Redonda serviu para que eu me acalmasse e me preparasse para o que estava por vir.
Na minha família a morte é encarada de uma forma não muito tradicional. Meu avô já falecido acreditava na reencarnação e hoje a maioria de nós acredita também.
Foi comovente ver como todos os seus filhos, netos e bisnetos a cercaram de carinho, preocupados não só com seu bem-estar físico, mas com a necessidade de tornar aquela passagem um momento de iluminação e crescimento para todos; um adeus dolorido, mas temporário.
No entanto, vovó tivera uma educação religiosa bastante rígida e eu podia sentir que ela estava com medo.
Quando cheguei ao hospital ela não falava mais, balbuciava algo incompreensível com profunda aflição.
Perguntei o que ela costumava falar antes de perder a capacidade de articulação e me disseram que ela não falava mais, apenas rezava.
Pude então entender o “Av, av” que se parecia às vezes com “ae, ae” e, segurando em suas mãos, rezei junto com ela: “Ave Maria, cheia de graça o Senhor é convosco...” como tantas vezes ela havia feito comigo antes de dormir. Ela se acalmou, mas eu ainda não podia compreender este medo tão grande.
Só fui capaz de entendê-la quando dias mais tarde eu mesma tive um sonho muito significativo. Eu estava na praia e o dia ia terminando. A maré estava baixa, o sol já se fora e a era hora de partir, de voltar para casa. Havia um morro para atravessar e eu me vi com muito, muito medo.
Era um caminho tão desconhecido, estava tão escuro! Hesitei muito; eu estava apavorada.
O que iria me acontecer? Que perigos me esperavam naquela mata densa? O que eu iria encontrar do outro lado do morro?
Neste instante duas pessoas se aproximaram de mim e disseram: “nós vamos acompanhá-la, não se preocupe.” Criei coragem e pude então começar minha subida. Acordei nesta manhã muito tranqüila.
Na minha próxima visita já não estranhei ao ler em seus olhos o medo da morte e das possíveis conseqüências, o medo da partida. Eu sentira este medo, eu a entendia.
Depois de algum tempo quando todos saíram e eu fiquei sozinha com ela, toquei seu rosto abatido, fiz longos carinhos em seus cabelos impressionantemente finos e brancos, rezei e me ouvi dizendo:
- Vovó, não tenha medo, a senhora não está sozinha. Há muita gente aqui para ajudar a senhora. Neste instante mesmo, eles estão aqui neste quarto ao seu lado, sabia, vovó querida?
- Eu sei - ela respondeu claramente para minha surpresa.
E assim, a cada visita, meu coração foi se curando e eu fui aprendendo a cuidar, a amar incondicionalmente e a usar o que minha intuição (ou anjos ou espíritos como queiram chamar) me dizia para usar no sentido de ajudar minha amada avózinha.
Com a sua morte um imenso bloco de gelo derreteu-se em meu coração e Psiquê quase morreu afogada nesta grande onda de amor derretido.
Eu precisava muito cuidar de alguém.
Por que eu me apeguei tanto a esta gata? Porque gostar não tem porquês. Eu gostava dela e a cada dia me descobria mais tolerante, mais compassiva, mais preocupada com seu bem-estar.
Deixei de encarar suas travessuras como algo feito contra mim, mas como o instinto animal em ação; perdoei, apreciei, me entreguei a este afeto como raras vezes na vida.
Minha filha à princípio ficou com justificado ciúme. Felizmente ela pôde ver as trasnformações que a gata operava em mim e se entregou ela mesma ao afeto pela gata, algo que nela é completamente natural.
Enquanto morei sozinha compartilhei com Psiquê uma rotina matinal que só foi interrompida quando me casei com meu namorado.
Eu acordava e ia pegar o jornal na porta do apartamento. A partir daí ela me seguia.
Ela se lambia inteira enquanto eu me banhava e prosseguia em sua toalete enquanto eu me vestia.
Um pouco de ração no prato dela e um bocado de cereal no meu potinho.
Ela comia na área de serviço e depois ficava aos meus pés.
Com o tempo descobri que ela adorava mamão papaya. Eu deixava as sementes e a casca raspada para ela que, a partir daí, deixou em paz as minhas plantas. O mamão supria as necessidades dela de comer vegetais.
Eu voltava para o quarto e para o banheiro e lá vinha Psiquê em meu encalço.
Ela passava o dia inteiro sozinha e quando eu voltava à noite a primeira coisa que fazia era cuidar da sua comida, da sua água e da sua caixa de areia.
- Rrrrrr, ela ronronava satisfeita.
Se por acaso eu chegasse e fosse falar ao telefone, ela me rodiava incansável e aborrecida até que eu fosse cuidar dela.
- Ela te educou direitinho - dizia meu namorado.
Um pouco de colo, muito carinho e, principalmente, minha voz conversando com ela faziam parte da sua “ração diária”, tão essencial à vida quanto os cuidados físicos.
Aprendi a cuidar, a me preocupar, a levar em conta as necessidades do outro antes de pensar em mim.
Eu estava pronta para a maternidade!
Levara quarenta anos para me preparar. Neste meio tempo havia sido mãe, esposa, amiga, dona de outros gatos, mas Psiquê entrou na minha vida no momento em que eu descobria que não precisava temer o afeto, o apego, a perda.
Esta convivência amorosa calou diálogos internos que me atormentaram por toda a vida: devo amar esta pessoa? Por que? Estou sendo amada na mesma proporção? Mas, principalmente: será que eu vou perdê-la?
Aprendi a amar simplesmente: minha filha, meu marido, meus pais, minha família universal.
“Se ali se vai Alice,
Aqui na verdade fica Alice,
Nos troncos, galhos e folhas
De suas generosas raízes”