
Saio da lavanderia e sigo andando pela Cincinato Braga, contornando o quarteirão pela Brigadeiro até chegar na Fausto Ferraz onde moro.
Sou tocada, atingida em cheio pela beleza e singularidade das coisas comuns, aquelas com as quais a gente se acostuma e nem percebe mais.
Passa por mim e entra na igreja uma senhora que reconheço: maquilagem exagerada, os cabelos presos numa profusão de grampos, seria uma personagem quase cômica não fosse o fervor que coloca em cada gesto ao coordenar a participação da comunidade nas missas.
No domingo de Páscoa do ano passado, sem qualquer aviso, ela me escolheu para levar o cálice com a hóstia até o altar para que fosse consagrada. Eu???? Freqüento a igreja apenas algumas vezes por ano! Estou mais para pecadora contumaz que para católica praticante! Caminhei pelo templo com a mesma emoção da minha primeira comunhão. Eu era criança, feliz e inocente novamente. As lágrimas rolaram sem que eu tentasse detê-las.
Agora, sábado de manhã, ela passa por mim compenetrada. Deve haver ensaio do coro.
Mais alguns passos e o vendedor de rosas as oferece para mim com o sorriso habitual sabendo que vai receber minha negativa habitual, mas mesmo assim mantendo sua alegria irresistível.
Duas senhoras interessam-se pela banquinha que vende chinelos, pantufas, mas a vendedora foi ao banheiro, informa o vendedor vizinho que tenta entretê-las enquando sua amiga não vem para que ela não perca a venda.
Passo pelo estacionamento do Extra. Há anos freqüento este supermercado. No começo, no tempo em que eu era muito boba, achava-o feio, sem graça, sem glamour.
Hoje comovo-me com as pessoas idosas e simples que o freqüentam.
À noite uma senhora costuma sentar-se nas cadeiras em frente aos caixas e, amparada na enorme bolsa que carrega, dorme. Precisei ver estas cenas algumas vezes para compreender que ela não está aguardando ninguém, que trata-se de uma pessoa sem teto que conta com a compreensão dos funcionários do supermercado para um temporário repouso.
Já tive encontros muito especiais com pessoas idosas com quem troquei palavras sábias, atitudes carinhosas e que iluminaram minha vida por alguns minutos .
Mas hoje não é nada especial que me comove.
É sim o movimento, os gestos comuns, as pessoas ativas me permitindo observar relances de suas vidas.
É a simples visão de alguém saindo do supermercado com uma sacola de compras que me aquece o coração.
Essa pessoa leva para casa o que comprou, preparará talvez uma refeição. O casal ali na frente divide o peso das sacolas entre si novamente com um olhar de compreensão.
Segundo John Lennon, “a vida é o que lhe acontece enquanto você faz planos” e eu estou vendo a vida se desenrolar na minha frente.
Engraçado como a gente não tem saudade de grandes fatos da vida, dos grandes acontecimentos.
A saudade maior (pelo menos no meu caso) é das pequenas coisas. Eu sei que um dia terei saudade das muitas vezes em que caminhei por este quarteirão.
Como na infância, lembra?
Lembra das nuvens formando desenhos no céu enquanto você “bestava” no quintal ? Lembra do facho de luz entrando pela janela e iluminando partículas de poeira em suspensão? Lembra de ficar deitado observando os padrões do azulejo ou do nó da madeira nos móveis? E de ficar lendo na cama comendo goiaba enquanto lia Monteiro Lobato?
Aposto que você se recorda com carinho da caminhada até a escola, daqueles vizinhos “comuns” de quem hoje você se lembra com ternura, do cheiro de arroz sendo refogado, do cheiro de caderno recém-encapado no início do ano letivo. E isso persiste pela vida adulta afora, geralmente a gente só se dá conta de quantas pequenas e importantes coisas formam a riqueza de nossa vida depois que não as temos mais.
Não, não quero que a vida seja congelada, que a gente se apegue a tudo, que a gente rejeite mudanças por valorizar o estado atual.
Mas hoje proponho um olhar diferente, mais terno, mais compassivo sobre cada um dos fios que formam o colorido tecido de nossas vidas.
Que trama linda a minha! E vocês fazem parte dela!
Obrigada,
Escrito em 2003 (eu acho)
Sou tocada, atingida em cheio pela beleza e singularidade das coisas comuns, aquelas com as quais a gente se acostuma e nem percebe mais.
Passa por mim e entra na igreja uma senhora que reconheço: maquilagem exagerada, os cabelos presos numa profusão de grampos, seria uma personagem quase cômica não fosse o fervor que coloca em cada gesto ao coordenar a participação da comunidade nas missas.
No domingo de Páscoa do ano passado, sem qualquer aviso, ela me escolheu para levar o cálice com a hóstia até o altar para que fosse consagrada. Eu???? Freqüento a igreja apenas algumas vezes por ano! Estou mais para pecadora contumaz que para católica praticante! Caminhei pelo templo com a mesma emoção da minha primeira comunhão. Eu era criança, feliz e inocente novamente. As lágrimas rolaram sem que eu tentasse detê-las.
Agora, sábado de manhã, ela passa por mim compenetrada. Deve haver ensaio do coro.
Mais alguns passos e o vendedor de rosas as oferece para mim com o sorriso habitual sabendo que vai receber minha negativa habitual, mas mesmo assim mantendo sua alegria irresistível.
Duas senhoras interessam-se pela banquinha que vende chinelos, pantufas, mas a vendedora foi ao banheiro, informa o vendedor vizinho que tenta entretê-las enquando sua amiga não vem para que ela não perca a venda.
Passo pelo estacionamento do Extra. Há anos freqüento este supermercado. No começo, no tempo em que eu era muito boba, achava-o feio, sem graça, sem glamour.
Hoje comovo-me com as pessoas idosas e simples que o freqüentam.
À noite uma senhora costuma sentar-se nas cadeiras em frente aos caixas e, amparada na enorme bolsa que carrega, dorme. Precisei ver estas cenas algumas vezes para compreender que ela não está aguardando ninguém, que trata-se de uma pessoa sem teto que conta com a compreensão dos funcionários do supermercado para um temporário repouso.
Já tive encontros muito especiais com pessoas idosas com quem troquei palavras sábias, atitudes carinhosas e que iluminaram minha vida por alguns minutos .
Mas hoje não é nada especial que me comove.
É sim o movimento, os gestos comuns, as pessoas ativas me permitindo observar relances de suas vidas.
É a simples visão de alguém saindo do supermercado com uma sacola de compras que me aquece o coração.
Essa pessoa leva para casa o que comprou, preparará talvez uma refeição. O casal ali na frente divide o peso das sacolas entre si novamente com um olhar de compreensão.
Segundo John Lennon, “a vida é o que lhe acontece enquanto você faz planos” e eu estou vendo a vida se desenrolar na minha frente.
Engraçado como a gente não tem saudade de grandes fatos da vida, dos grandes acontecimentos.
A saudade maior (pelo menos no meu caso) é das pequenas coisas. Eu sei que um dia terei saudade das muitas vezes em que caminhei por este quarteirão.
Como na infância, lembra?
Lembra das nuvens formando desenhos no céu enquanto você “bestava” no quintal ? Lembra do facho de luz entrando pela janela e iluminando partículas de poeira em suspensão? Lembra de ficar deitado observando os padrões do azulejo ou do nó da madeira nos móveis? E de ficar lendo na cama comendo goiaba enquanto lia Monteiro Lobato?
Aposto que você se recorda com carinho da caminhada até a escola, daqueles vizinhos “comuns” de quem hoje você se lembra com ternura, do cheiro de arroz sendo refogado, do cheiro de caderno recém-encapado no início do ano letivo. E isso persiste pela vida adulta afora, geralmente a gente só se dá conta de quantas pequenas e importantes coisas formam a riqueza de nossa vida depois que não as temos mais.
Não, não quero que a vida seja congelada, que a gente se apegue a tudo, que a gente rejeite mudanças por valorizar o estado atual.
Mas hoje proponho um olhar diferente, mais terno, mais compassivo sobre cada um dos fios que formam o colorido tecido de nossas vidas.
Que trama linda a minha! E vocês fazem parte dela!
Obrigada,
Escrito em 2003 (eu acho)
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