
São Paulo não foi minha primeira experiência de grande metrópole. Na verdade, o choque foi ainda maior quando saí do Vale do Paraíba para a Califórnia.
Imaginem de Taubaté para São Francisco sem tempo para amarrar o queixo para ele não cair! Minha adaptação foi muito boa: aprendi a não me chocar o tempo todo.
Tão boa que, já no Brasil, fui capaz de disfarçar meu espanto quando entendi que o primo de uma colega de trabalho havia lhe trazido ópio da Itália. Perguntei com o ar mais cosmopolita que eu pude encontrar:
- Ah, é? Ópio? E que tal? Você já experimentou? O que sentiu?
- Opium, Katia, Ives Saint Laurent, o perfume!
Depois disto, virar paulistana quando me mudei para São Paulo, foi bico.
E quase morro de tanta paulistanidade!
Stress, medo de assaltos, solidão, cansaço permanente, eu havia adotado o “quando em Roma, faça como os romanos”.
Bobagem! Quem foi que disse que São Paulo foi sempre assim?
Já ouvi muitos paulistanos ressentidos se queixarem por tanta gente ter “invadido” sua cidade e a transformado nesta metrópole assustadora.
Deve ter sido por causa de gente como eu que de forma caipira (no sentido pejorativo) resolveu deixar de lado seu modo de ser e virar cosmopolita.
Pois, nos últimos anos reassumi meu modo de ser caipira e nunca vivi tão bem.
Esta é apenas uma cidadezinha que se expandiu geograficamente, gente!
As pessoas que vivem aqui são gente como aquelas que habitam o interior, o Nordeste, as Minas Gerais, etc. São Paulo está cheia de caipiras, nascidos aqui ou não.
Só que elas receberam algumas lições que as impedem de viver em São Paulo.
Pois é, a a maioria delas mora em São Paulo, mas não vive de verdade aqui.
Então, estas são algumas constatações caipiras de quem aprendeu a gostar de viver em São Paulo (à sua maneira).
Algumas dicas podem parecer óbvias, mas se são tão óbvias assim, por que você ainda não as está praticando, uai?
Fale sempre com estranhos
Não tenha medo: fale com estranhos na fila do banco, no metrô, no supermercado, na academia. As pessoas estranham um pouco, a princípio, e algumas vão mesmo olhá-lo de cara feia. Não desanime, continue. Conversar amplia seus horizontes, faz passar o tempo mais depressa e pode ser muito divertido.
Por que imaginar que o estranho vai explorá-lo, aborrecê-lo, ou mesmo assassiná-lo?
Ele pode ser um grande amigo que você, por enquanto, desconhece.
Se você praticar bem a arte de puxar papo, ela vai ajudá-lo em outros momentos muito interessantes.
Minhas amigas caipiras não têm a menor dificuldade de estabelecer contatos e fazer amigos (e namorados). Elas não se queixam de solidão. Interessada ou desinteressadamente, elas simplesmente puxam papo.
Eu mesma já vivi romances maravilhosos que começaram a partir da conversa com um desconhecido. Se eu fosse esperar que amigos e parentes me apresentassem pessoas, teria perdido uma parte muito interessante da minha vida.
Se o outro for paulistano e você estiver interessada (agora é só para as mulheres), considere que, mesmo sendo homem, ele não tem o hábito de falar com estranhos.
Você tem que dar a ele esta oportunidade. No supermercado coloque distraidamente suas compras no carrinho dele, no trânsito pare para examinar um pneu supostamente furado, no trabalho, ah, no trabalho invente você mesma uma desculpa, pôxa! Jogue fora o medo e assuma a imaginação e a inteligência que você possui para não parecer “atirada” (isto faz parte das minhas lições de caipira) e dar a ele a magnífica oportunidade de falar com você.
Era um fim de tarde chuvoso quando eu vi um rapaz saindo do metrô e caminhando rápido pela Pamplona. Eu lhe ofereci (desinteressadamente, desta vez) carona no meu guarda-chuva. Descobrimos que éramos vizinhos e ele me convidou para tomar um café que eu não pude aceitar por estar com pressa.
Mas, quando não houver nenhum estranho ou amigo à vista e a solidão estiver muito difícil de agüentar, ligue para o CVV - Centro de Valorização da Vida. Eles são um bando de caipiras paulistanos com uma disposição imensa para nos ajudar a viver.
Incomodados, não se mudem: mudem o mundo
Eu ficava incomodada com a falta generalizada de educação. Minha irritação era constante com os motoristas mal educados, as pessoas que jogam papel na rua, as que furam fila e as que deixam senhoras em pé no ônibus ou no metrô.
Com o tempo, à medida em que eu fui aprendendo a amar as pessoas, este amor passou a englobar também as pessoas mal educadas.
Por que as pessoas são recriminadas na Suíça por jogar papel no chão? Porque se acredita que elas possam mudar!
Não, não comecei a recriminar ninguém.
Passei a contar para as pessoas o que elas haviam feito. Sem julgamento, sem recriminações.
Abria a janela do carro e dizia:
- Moço, o senhor deixou caiu um papel. Acho que é seu.
Milagre! As pessoas ficavam tão envergonhadas que abriam a porta e recolhiam o lixo!!!
Na rua faço a mesma coisa e tive apenas uma experiência de desagrado, apenas uma garota deu de ombros e me olhou com ar enfezado.
Agora, no metrô, se vejo uma senhora em pé (o que devo dizer que está ficando cada vez mais raro), chego para um rapaz e lhe conto:
- Viu aquela senhora? Ela parece tão cansada!
Nem preciso sugerir que ele se levante. O efeito é imediato.
Para isto, é claro, tem que haver carinho na voz, é necessário acreditar que estas pessoas saibam o que é certo, só estão precisando ser relembradas das lições que, com sorte, elas tiveram um dia.
Desista do carro
Em Taubaté (ao menos no meu tempo) não havia muitas linhas de ônibus e as pessoas se perguntavam: “Prá que? É tão pertinho. Daqui ali é um tirinho de espingarda”
Acostumei-me a atravessar a cidade a pé e fui magérrima a adolescência e juventude inteiras.
A não ser que você goste muito de dirigir e não se incomode com o trânsito, sugiro que você faça do seu bairro a sua cidade (médicos, escolas, comércio) e que só atravesse as fronteiras de metrô ou de ônibus. Para isto, é claro que você tem que aprender a andar a pé.
É, isto mesmo, a pé, sem medo de assaltos, fazendo um bom trabalho cardiovascular e exercitando a arte de observar o caminho.
Eu já fui assaltada três vezes dentro de um carro e nenhuma enquanto andava pelo centro da cidade, pela 25 de março ou pela Paulista.
Seja radical, opte por médicos, escolas, cinemas e lojas que lhe permitam dispensar o carro. Se você gostar do agito, das filas para estacionar no shopping center, da paquera motorizada dos Jardins no final de semana, tudo bem. Mas, se você, como eu, já passou dos 30, experimente radicalizar. Quanto tempo de vida eu tenho para desperdiçar?
Quando eu caminho livre para casa no final do dia, vejo os carros parados na Pamplona e o ar de aborrecimento impresso nos rostos cansados dos motoristas e agradeço aos Céus pela benção de poder trabalhar sem carro.
Quatro anos gastando no trânsito 3 horas por dia foram suficientes para me fazer radical. Foi só fazer as contas: eu gastava dois dias de trabalho por semana no trânsito! É melhor ganhar menos e viver mais. Ou estudar em casa sozinha durante este tempo para me tornar uma profissional melhor.
Hoje faço pelo menos 1,5 h de exercícios por dia e a troca foi muito, muito vantajosa.
É claro que freqüento uma academia no meu bairro. Antes eu chegava estressada em casa depois de fazer ginástica num lugar maravilhoso mas que me exigia 1 hora de trânsito para alcançá-lo.
Ao caminhar, esteja atento ao caminho. Você faz isto quando viaja, por que não incorporar esta atitude para o dia-a-dia? Ah, já sei, porque sua cabeça está concentrada no seu ponto de partida ou no seu ponto de chegada.
Dedique-se ao prazer de caminhar, de olhar ao redor, de observar os rostos das pessoas, de, de vez em quando, entrar em lojinhas que pareçam interessantes, de entrar numa exposição que algum banco esteja promovendo, de fazer tudo aquilo que você não faria se estivesse de carro porque seria impossível estacionar.
Ah, e quando for a um parque, por favor, não vá caminhar pelas alamedas principais durante o tempo recomendado pelo cardiologista. Se você quiser fazer da caminhada um remédio, tudo bem, mas não se furte ao prazer de caminhar sem pressa depois. Não deixe de olhar para a copa das árvores, aproveite para respirar, sinta o cheiro de terra molhada. Embrenhe-se pelas trilhas menos usadas, passe a mão no tronco das árvores e embriague-se da Natureza tão rara nesta grande cidade.
Resgate suas práticas religiosas
Não sei o que você fazia antes de vir para São Paulo, mas é aqui que você vai precisar mais daquelas práticas que lhe dão a dimensão da sua vida dentro de uma vida maior.
Não considero religiosas apenas as orações ou meditações. Tirar o sapato e sentar-se embaixo de um eucalipto no parque Ibirapuera é puro êxtase para mim.
Assistir a um concerto (baratíssimo) no Teatro Municipal, também.
Eu fui a única aluna reprovada num curso de dança de salão, em compensação, danço maravilhosamente bem sozinha (principalmente se ninguém estiver olhando). Os movimentos são precisos, graciosos, seguem a música harmoniosamente? Sei lá! Ponho minha alma para fora quando danço “Adios, nonino” do Piazolla ou as músicas do Vangelis e me encho de alegria com as músicas do Gilberto Gil. Descobri, recentemente, que um tipo de meditação é feito através da dança. Pois é isto que faço enquanto danço sozinha, eu medito, eu me coloco em contato comigo mesma e com o Universo.
Dá prá viver sem este equilíbrio?
Aprecie seus vizinhos
Com a família e os amigos mais chegados morando em outro bairro ou em outra cidade (o que dá na mesma em termos de tempo no trânsito), tome consciência de que seus vizinhos são preciosos.
O respeito à privacidade e à individualidade em São Paulo são coisas que eu considero maravilhosas e um dos motivos por optar por morar aqui.
Mas, as pessoas exageram! Por medo do abuso, daquele vizinho chato que não sai da nossa casa, da vizinha fofoqueira que vai controlar nossas vidas, abolimos todo o contato com os vizinhos, principalmente se morarmos em prédios.
Olha, ninguém mais tem tempo para “não sair da sua casa” ou fofocar. Sossegue, relaxe, você não está sendo julgado. Tem muita gente boa pertinho de você.
Ao invés da falta total de contato, por que não aprender a fixar e a obedecer limites?
Um abraço carinhoso, uma xícara de chá e um ouvido amigo podem fazer toda a diferença naqueles dias em que a vida parece não ter significado.
E eu não estou me referindo apenas a quem recebe o abraço, a xícara de chá e o ouvido. Oferecê-los talvez dê, ainda mais, todo significado à vida.
São Paulo, 19 de abril de 1997
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